Diz que o endividamento das famílias é um problema social grave
Fevereiro 15, 2010
Consta que durante esta semana o programa Ídolos recebeu* mais de um milhão e quinhentos mil telefonemas para a escolha do vencedor da segunda edição do programa. Nem admito que 15% da população tenha votado, a pagar, num programa televisivo quando apenas 40% da mesma população se dá ao trabalho de votar, de graça, nas eleições nacionais; quero, sim, pensar que os mais aficionados por este fenómeno tenham votado várias dezenas de vezes – hipótese que reduz a paranóia social a algumas dezenas de milhares de pessoas. Feitas as contas por alto, efectuou-se uma transferência – só nesta semana! – de 1.080.000€ do rendimento das famílias** para a produção do referido programa. Somem a este valor o dinheiro gasto todos os domingos durante os últimos três, quatro, cinco meses que o programa esteve no ar e concluímos que uma fatia jeitosa do PIB português foi afecta à missão colectiva de mandar um gajo estudar música em Londres. Quando se diz que um dos principais problemas do país é o de investir pouco na educação penso que não é este tipo de investimento que os especialistas recomendam.
*0.6€ + IVA
**[Consumo = Rendimento Disponível – Poupança (ou Investimento)]; das aulas de Macro.
As estátuas do Windmill
Fevereiro 12, 2010
Houve um tempo em que eram considerados audazes aqueles que se levantavam para troçar do establishment de forma audível, provocatória, impressionante mas sempre, sempre, com reverente dedicação ao público e à arte.
Quando em 1930 Laura Henderson ficou viúva, acompanhava-a então uma vasta fortuna conquistada pelo seu marido no negócio da transacção de matérias primas. A septuagenária socialite prontamente recusou seguir o caminho convencionado para as senhoras da sua posição: os clubes de croché, os intermináveis brunches no countryside inglês, os sumptuosos eventos de caridade – tudo isso a entediava incrivelmente. Em vez, decidiu comprar, recuperar e gerir um velho teatro no West End londrino.
Por irreverente inspiração da proprietária, o Windmill Theatre tornou-se na primeira casa de espectáculos inglesa e exibir em palco senhoras nuas – totalmente nuas, isto é. Sim, é verdade que do outro lado do Canal já há muito que Josephine Baker dançava e rebolava nas Fólies Bergère apenas com uma saia de bananas. Mas na fria e austera Inglaterra sequer o pensamento de isso acontecer em território nacional era indecoroso e obsceno; assim o sentia especialmente a classe dirigente inglesa.
A grande dor de cabeça de Mrs. Henderson nessa louca empresa sempre foi a censura. Felizmente, tinha a capacidade, os meios, os contactos mas, sobretudo, a afronta de ridicularizar com perspicácia as proibições que os defensores da ordem a da moral impunham aos shows de nus do Windmill. Argumentou Mrs. Henderson que se a nudez podia ser apreciada publicamente nas estátuas das principais praças e nos quadros dos museus mais visitados, porque não no teatro? “Porque as figuras não se mexem”, retorquiu a sábia voz da censura. O Windmill Theatre tornou-se, assim, na primeira casa de espectáculos inglesa a exibir em palco senhoras nuas, totalmente e obrigatoriamente imóveis, estáticas, do princípio ao fim de cada apresentação.
Com a guerra, a nightlife londrina desvaneceu a uma última luz na ribalta, na Great Windmill Street, a única cortina que se conservou hasteada durante o Blitz – as 57 noites consecutivas em que Londres foi bombardeada pela Luftwaffe. O Windmill recebia todas as noites soldados prestes a embarcar para as trincheiras, familiares desesperados, civis desesperançados, deputados, membros do governo e da casa real. A censura, a mesma que havia decretado o fecho compulsório de todos os teatros da capital, assistia impreterivelmente noite após noite aos espectáculos musicais da Revudeville com as suas estátuas exóticas, indecentes e demasiado humanas. A música era ensurdecida pela chuva de destruição que assolava londres. Mas no palco, ao léu, frontal e puro, estava um qualquer símbolo de indecência ou liberdade. E por esse símbolo, lá fora, travava-se uma guerra.
Começo a ficar muito preocupado
Fevereiro 2, 2010
Na imprensa (outrora livre), mais um artigo de opinião censurado pelo Governo. Mas não aqui:
“O Fim da Linha”
Mário Crespo
«Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.»
publicado aqui.
Hoje estreia o Anticristo
Janeiro 28, 2010
«Existe nos E.U.A. um código da produção [cinematográfica] – o famigerado Código Hays (do nome de William H. Hays, seu inspirador principal) – datado de 1930, mais ou menos modificado posteriormente, e que indica um certo número de proibições. O argumento de um filme nunca deve aprovar a eutanásia nem justificar a vingança, pelo menos no que diz respeito à época contemporânea. A imagem não deve mostrar em pormenor assassínios brutais, e a técnica do crime de morte, sob a forma que se encontra descrita na literatura, não pode ser imitada. O emprego das armas de fogo tem de ser reduzido ao essencial. A descrição das perversões sexuais, subentendidas ou não, é interdita. Nunca se mostrará o parto, nunca se pronunciará a palavra aborto. São igualmente proibidas as blasfémias intencionais e todas as afirmações irreverentes ou grosseiras. As cenas em que alguém se despe são de evitar, assim como a exposição de certas partes do corpo humano, entre as quais o umbigo. O adultério e todo o comportamento sexual ilícito, por vezes necessário à construção da intriga, não devem ser tratados explicitamente, nem justificados nem apresentados a uma luz atraente. Não se deve nunca ridicularizar qualquer fé religiosa, e os ministros do culto, no exercício das suas funções, jamais serão apresentados sob um aspecto crapuloso ou cómico…»
in “A Crise de Hollywood” (1967) por Paul e Jean-Louis Leutrat
*
«Louise, I’m the Vice President of the Coalition for Moral Order! My co-founder has just died in the bed of an underage black whore!»
Republican Senator Kevin Keeley, interpretado por Gene Hackman no filme “The Birdcage” (1996) de Mike Nichols.
chapter 6
Janeiro 26, 2010
It’s just a job. Grass grows, birds fly, waves pound the sand. I beat people up. Muhammad Ali
O capítulo anterior começava com uma citação do Evangelho de São Lucas. Imagino que este seja menos pacífico. 2, 1, Go!
“Médicos ao poder” por António Lúcio Baptista, médico. (no i de hoje)
Os médicos são das classes profissionais com uma das melhores formações. Há uma vertente quase espiritual na profissão. Se a relação médico/paciente é boa, aprofunda-se e o médico torna-se confidente. Muitos são ainda políticos, professores, gestores, autarcas, governadores, ministros, conselheiros de Sua Santidade. Da maioria temos boas referências. Quando Sócrates se viu atrapalhado, chamou a médica e provavelmente disse: “Sr.a dr.a, não sei que faça!” A médica ouviu os queixumes, deu-lhe esperança, avisou que não faz milagres, mas foi aliviando o sofrimento. Enfim o paciente ficou aliviado, já não grita. Sendo esta classe tão bem preparada, eficaz e inteligente, porque subscrevem os médicos medicamentos em vez de os prescreverem? A ministra [médica] – há quem lhe chame ministra da gripe – pôs o seu saber ao serviço do SNS e prescreveu a receita para um doente em estado muito grave. O doente não está melhor, mas já não grita. Está tranquilo, mas desenganado.
– Para a escolha do seu candidato presidencial, a direcção do PS hesita entre o poeta Manuel Alegre e o Dr. Povoas.
– Os meus médicos preferidos são o Dr. Pablo e o Dr. Nikolai.
– Da última vez que fui ao consultório do senhor doutor disse-me ele que me concederia três desejos se eu o esfregasse. Não duvidei da sua capacidade de me oferecer a vida eterna, toda a riqueza do planeta e – para não me chamarem de egoísta – a paz nos bairros de Lisboa; mas lembrei-me que não havia nenhuma farmácia de serviço ali por perto e vim-me embora.
– A minha tia diz que quem a curou foi uma nossa senhora qualquer de trás-os-montes; mas nós, homens da ciência, não acreditamos em milagres. Acreditamos, sim, no poder da sobre-prescrição de Xanax.
– Já corri as listas telefónicas e os meus contactos do Facebook, mas sem efeito: há por aqui algum médico que queira fazer o meu exame amanhã?
– Declaração de interesses: não estou doente; nunca desejo “saudinha” a ninguém no ano novo; sou beneficiário da ADSE.

