x encontrou-se com y para colocarem a conversa em dia. (Revista Maria, há umas semanas.)

Argh! Esta mania horrível, esta intenção perversa, este novo-riquismo linguístico que tenta à viva força  substituir termos ou expressões tidas como “populares” – que mais não são que palavras genuínas – por este dialecto de hospedeira de bordo antes da descolagem; de tão ridículo que é já chegou às revistas popularuchas, apenas para mutilar as expressões mais básicas do nosso quotidiano. Já o digo há algum tempo: Portugal é um país de novos ricos, uma sociedade que cultiva esse cuidadinho idiota pela forma, que se quer sagrada e, invariavelmente, absurda. Porra! Ponham alguma razoabilidade nestes trejeitos pacóvios, botem algum gosto nisto tudo!

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Ontem fiquei algo decepcionado com a falta de música nas ruas da Baixa – eram já quase 3h quando lá chegámos, é verdade; mas, caramba, os corpos só chegam de manhã às praias da Foz se forem embalados de arraial em arraial ao longo do rio. Nota positiva: vê-se já mais gente com ervas e alhos na mão. Finalmente viram que a diferença entre um martelo, uma vuvuzela e um tupperware não é assim tão grande: plástico industrial, asséptico, frio e previsível. Vivam as ervas! (subtraim-lhe o plural, outra nobre causa). Eu, de facto, prefiro o alho-porro ao martelo na noite de S. João. Quanto ao arraial para as minhas bandas, tenho que agradecer a todos os que compareceram, física ou espiritualmente. Foi uma grande noite ;)

(Algumas pessoas inquiriram-me sobre a selecção musical. Fica em baixo a playlist escolhida. E que para o ano não falte a música, oh fachabor!)

  1. Formiga bossa nova – Amália Hoje
  2. Olha por ti – Ala dos Namorados
  3. Estrada da montanha – Madredeus e a Banda Cósmica
  4. Irmãos de sangue – Rui Veloso
  5. Fado da pouca sorte – Tito Paris
  6. Kanimambo – Irmãos Catita
  7. Não há duas sem três – Balla
  8. Cartas de amor – Trio Odemira
  9. Zuvi zeva novi – Mler Ife Dada
  10. Estou além – Humanos
  11. Lavadeiras de Caneças – Aida Batista
  12. Ruas e praças – Ala dos Namorados
  13. Ignaras vedetas – Deolinda
  14. Azulejos voadores – Donna Maria
  15. Chamaram-me cigano – Resistência
  16. Tomo conta desta tua casa – Virgem Suta
  17. Bricabraque e pechisbeque – Ala dos Namorados
  18. À sombra de dois trombones – Dina Bastos e Mário Alves
  19. Cascata de pedra antiga – Florência
  20. Fado varina – Ana Moura
  21. Fado xuxu – Amália
  22. No azul do céu – Irmãos Catita
  23. Patinho de borracha – Deolinda
  24. Agarrem-me – Oquestrada
  25. Sou tripeirinha – Corina
  26. Boa nova – Helena Tavares
  27. Siga a marinha – Ala dos Namorados
  28. No cover – Samuel Úria
  29. S. João pagão – Dina Bastos e Mário Alves
  30. Máquia zero – Rui Veloso
  31. A teia – Humanos
  32. Vovó Joaquina – Virgem Suta
  33. Troca pingas – Ala dos Namorados
  34. Quando janto em restaurantes – Deolinda
  35. Vira da desfolhada – Tereza Salgueiro
  36. A carroça dos poetas – Sérgio Godinho
  37. Sonhadores inatos – Jorge Palma
  38. Comédia – Lufa Lufa
  39. Oxalá te veja – Oquestrada
  40. A problemática colocação de um mastro – Deolinda
  41. Baile da paróquia – Rui Veloso
  42. Marcha dos centenários – Maria Clara
  43. Drogado – Irmãos Catita
  44. Allô – Margarida Amaral
  45. O homem da gaita – Peste e Sida
  46. Tão lindo – Diabo na Cruz
  47. Homem muito brasa – Gabriela Schaaf
  48. Maria Albertina – Humanos
  49. Marcha do Zé do Povo – Maria de Lurdes Resende
  50. Quatro quadras soltas – Sérgio Godinho
  51. Movimento Perpétuo Associativo – Deolinda
  52. Hino nacional definitivo – Ena Pá 2000
  53. Marcha do Pião das Nicas – Carlos Paião
  54. A borracha do Rocha – Real Combo Lisbonense
  55. A Salsa das Amoreiras – Afonsinhos do Condado
  56. Festa – Despe e Siga
  57. Conto de fadas de Sintra a Lisboa – Pontos Negros
  58. Trolha da Areosa – Rui Veloso
  59. Fadinho da Ti’ Maria Benta – Amália
  60. São João de toda a gente – Florência
  61. O amarelo da Carris – Mariza
  62. Não tenho mais razões – Deolinda
  63. A lei – Virgem Suta
  64. Dona Ligeirinha – Diabo na Cruz
  65. A história de Zé Passarinho – Ala dos Namorados
  66. Trapeiras em flor – Maria Clara
  67. Sete e Pico – Conjunto António Mafra
  68. Fado Toninho – Deolinda
  69. O inventor – Heróis do Mar
  70. Venham mais cinco – Tubarões
  71. Lá vai Lisboa – Amália
  72. Fon fon fon – Deolinda
  73. É Pra Ganhar (Hino da Bola) – Irmãos Catita
  74. O galo é o dono dos ovos – Sérgio Godinho
  75. São João bonito – Lenita Gentil
  76. Criatura da noite – Entre Aspas
  77. Rádio Ska – Despe e Siga
  78. Foram cardos, foram prosas – Manuela Moura Guedes
  79. O conquistador – Da Vinci
  80. Fio de beque – Rui Veloso
  81. Pó de arroz – Tiago Bettencourt
  82. Fronteira – Mariza
  83. Lisboa à noite – Milú
  84. Tarantella – Amália
  85. Gorongosa – Irmãos Catita
  86. Canção da tal guitarra – Deolinda
  87. Psicadélico desesperado – Rui Veloso

Caso Prático nº 24/6

Junho 21, 2010

Ando com uma enorme falta de vontade para estudar. A matéria não ajuda nada: basicamente mais não é que perceber como determinado instrumento funciona e pode ser útil para dado fim. Ora, não tendo um fim em vista, o interesse pelos meios que me permitiriam, eventualmente, alcançar esse hipotético objectivo abandona-me mal me debruço sobre os papéis.

 Se não se importassem queria esboçar aqui um cenário, hipotético, fantasioso, que talvez me desperte algum interesse, frágil, efémero, sobre a dita matéria. (Este post só serve um propósito egoísta; recomendo que ninguém perca tempo a ler isto.)

*

Vem aí a noite de São João, as vinte e quatro horas mais loucas e concorridas do Porto no ano inteiro – e sem dúvida uma óptima oportunidade para fazer uma grande festa e um grande negócio. Ora, eu e um amigo abrimos no ano passado um café-restaurante, o JnB, que ao fim de semana acolhe concertos de jazz e blues e nos dias úteis é palco de conferências, apresentações de livros, debates, tertúlias. Ocupa um velho casarão no pitoresco e degradado Largo do Moinho de Vento (aos Clérigos) que, ao cabo de tantos anos de indiferença tanto por parte da Câmara como do público, é agora dinamizado por nossa iniciativa, com pequenos concertos ao fim da tarde (quando o tempo o permite) e uma feira de discos, livros, roupa, enfim, toda a parafernália em segunda mão possível e imaginada por quem lá vai vender e comprar.

Este ano planeamos instalar-nos definitivamente no dito largo na noite de São João. Para além do dinheiro e da publicidade, move-nos a festa e a música. Assim, quem lá for pode contar com um fornecimento non-stop de sardinha assada, broa, fêveras e caldo verde – para encher a bucha – sangria, verde, maduro tinto e branco, super bock e as “comerciais” brancas – para embalonar o espírito. A música já é ensaiada pelos artistas da casa desde o Natal. Do seu trabalho e reportório resultou um novo híbrido musical, o Dixie-Fado, uma transfiguração das antigas marchas e fados-canção da primeira metade do século, através de arranjos rítmicos que nos soam ao fim de um dia de trabalho numa qualquer cidade nas margens do Mississipi. Aos metais de sopro e à precursão juntam-se as vozes vencedoras do Concurso de Cantadeiras do Círculo Católico de Operários do Porto. Banda e canto animarão o largo do fim da tarde até à meia-noite, altura em que será feita uma pausa para que o fogo de artifício nos Aliados encha o olho dos presentes. Em seguida entram em palco os Real Combo Lisbonense que substituem a Dixie Banda enquanto esta, com o alho e as ervas na mão, o estandarte do Café na outra, os instrumentos sabe-se lá onde, partem em rusga sanjoanina pela Baixa, primeiro para a Cordoaria, depois pelos Caldeireiros até às Flores, ao Infante e Miragaia e bairro adentro subindo por Tomás Gonzaga, à Vitória e, finalmente, de volta ao Moinho de Vento. São por esta altura três e meia da manhã, o bailarico jazzistico dos Real Combo prepara-se para o último encore. É a vez dos DJs da Rádio M80 tomarem conta do público e remisturarem a melhor música portuguesa cozinhada nos anos 70, 80 e 90. É quase de manhã e continuam a sair sardinhas e caldo verde.

Agora mãos à obra: é preciso preparar a devida informação financeira (previsional, claro) para aliciar sócios que ajudem a financiar o regabofe. Fornecedores de material (equipamento musical e electrónico, decoração, comida, mobiliário, etc. etc.), licenças na Câmara e no Governo Civil, segurança adicional em caso de desgraça, publicidade e divulgação, empréstimo do financiamento residual que não for possível angariar e os seus custos, …; e não esquecer de traduzir em números redondos (bem redondos) os impactos positivos do projecto no negócio! – dar a conhecer o conceito a um novo e vasto público, prestigiar a marca, conquistar presença na comunicação social que anda noite fora a reportar as festividades, aumentar o capital cultural associado ao nome do Café.

Enfim, depois de estar tudo isto feito começo por apresentar a ideia aos meus vizinhos; aos meus concorrentes, melhor dizendo: o Progresso (mesmo em frente), a Casa Viúva e a Casa Susana, que partilham o largo connosco. Não será difícil convencê-los já que, vendo bem, os custos com os artistas serão quase na totalidade suportados por nós. Dividiremos os encargos do equipamento e decoração. Cada casa terá a sua própria banca e cada uma venderá um conjunto de produtos específicos, de forma a não por em causa as receitas dos outros. Chegando a um acordo, será apresentada toda a documentação financeira aos bancos que se propuserem a financiar parte do custo do projecto, a seis ou mais meses. Finalmente, será feito o devido choradinho junto da Vereadora da Animação e Cultura, a Dra. Guilhermina Rego, para que nos ceda uns trocos para pagar, pelo menos, à polícia e alguns cartazes; ou, se o ímpeto de austeridade até isso impossibilitar, ao menos uma referenciazita no site e revista da Câmara.

Nota: falar à associação de feirantes. É imprescindível a presença de uma senhora com voz possante a vender alho, cravos, cidreira e manjerico. Pronto, martelos também.

Nota 2: arranjar um esquema para impedir a entrada de Vuvuzelas (sugestão a ponderar: cobrar o dobro a quem andar com uma).

*

 Não sei se isto terá os efeitos que eu espero que tenha no meu estudo. Vou agora tentar. Desculpem o espaço ocupado e santa paciência aos que leram tudo.

Não foi por isso que se fez Abril?

Graças à objectiva virtual de Ricardo Alves, amigo no Facebook e no mundo real.

«His prescription [to the chaos and unhappiness of the world] was very exact. Society should be organized into phalanxes – the French Word is phalanstères – which would consist of a kind of Grand Hotel arrangement, not too dissimilar from Owen’s Villages of Cooperation. The hotel was carefully described: there would be a large central building (its various rooms and their dimensions were all thought out), and around it would be fields and industrial establishments. You could live in the hotel at the scale best suited to your purse; first, second, or third class, with just as much privacy as you desired (including meals in your rooms) and with just enough mingling to spread a leaven of culture. Efficiency would be achieved through centralization; Fourier, the old bachelor, paints a mouth-watering picture of the triumphs of the central cuisine.

Everyone would have to work, of course, for a few hours each day. But no one would shirk work, for each would do what he best liked. Thus the problem of dirty work was solved by asking who liked to do dirty work. The children, of course. So there would be Little Hordes who would go off gaily to the slaughterhouses or to mend the roads and have the time of their lives. And for the minority of children who shrank form dirty work, there would be Little Bands who would tend the flowers and correct their parents’ bad pronunciation. Among the workers there would be amicable competition to see who did best: contests of pear growers and cultivators of spinach and finally (once the phalanstery principle had encircled the globe and the 2,985,984 necessary phalanstères established) great battles of omelette chefs and champagne bottlers.

And the whole affair would be profitable in the extreme; gains would run to 30 percent. But it would be communal profit: the surplus would be divided five twelfths to labor, four twelfths to capital, and three twelfths to “ability”, and everyone would be urged to become a part owner as well as a fellow worker.»

Idem

If your sciences dictated by wisdom have served only to perpetuate poverty and strife, give us rather sciences dictated by folly, provided that they quiet furies and relieve the miseries of peoples. Charles Fourier

*

I alone have confounded twenty centuries of political imbecility; and it is to me alone that present and future generations will look for the origin of their immense happiness.

E eis que, entre Ricardo e Stuart Mill, surge em cena Charles Fourier:

«Born in 1772, the son of a tradesman of Besançon, he spent his days as an unsuccessful commercial traveler. In a sense he did nothing, not even marry. His passions were two: flowers and cats. It is only at the end of his life that he is appealing, for he spent his last years punctually sitting at advertised hours in his small room awaiting the visit of some great capitalist who would offer to finance his schemes to do over the world. (…) But no one ever came.

Fourrier, to be polite, was an eccentric; to be accurate, he was probably off his rocker. His world was a fantasy: the earth, he believed, had been given a life of eighty thousand years; forty thousand of ascending vibrations and the same number of descending. In between (never mind the arithmetic) lay eight thousand years of Apogée du Bonheur. We lived in the fifth of eight stages of advancement, having pushed through Confusion, Savagery, Patriarchism, ad Barbarousness. Ahead lay Guaranteeism (not a bad bit of insight), and then the upward slope of Harmony. After we reached utter bliss, however, the seesaw would tip and we would work our way right back down through all the stages to the beginning.

But as we worked our way ever deep into Harmony, things would really begin to pop: a Northern Crown would encircle the Pole, shedding gentle dew; the sea would become lemonade; six new moons would replace the old solitary satellite; and new species would emerge, better suited to Harmony: an antilion, a docile and most serviceable beast; an antiwhale, which could be harnessed to ships; an antibear; antibugs; and antirats. We would live to be one hundred and forty-four years old, of which one hundred and twenty years would be spent in the unrestricted pursuit of sexual love.» (continua…)

The Wordly Philosophers, Robert Heilbroner

*

O vídeo não está minimamente relacionado com o excerto de cima. Acho eu.