Esses tais assuntos que “verdadeiramente interessam ao país”

Maio 17, 2010

Cavaco Silva promulgou há bocado o diploma que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, com aquela habitual pose de frete institucional de quem quer despachar estes fait-divers para atacar as questões sérias que afligem todos os portugueses. Escolheu mal o dia para bater o ralhete já que – e a política deve tanto, mas tanto, ao domínio do simbólico – se comemora hoje o Dia Internacional Contra a Homofobia. Há precisamente 20 anos, a OMS retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais.

Duas imagens à vossa consideração,

A primeira fotografia foi tirada no Stonewall Inn de Nova Iorque, há 30 anos, durante os célebres motins que marcaram o início o Movimento Gay por todo o mundo.

A segunda foi tirada na Rua Passos Manuel, no Porto, durante a  Marcha do Orgulho LGBT de 2009.

Da primeira para a segunda não muda apenas a data e o local; vemos confrontos entre manifestantes e a polícia (0 Estado) na primeira, temos manifestantes pacíficos na segunda; uma subcultura subterrânea considerada como lixo social e arrumada em guetos decrépitos, um movimento aberto à sociedade, emancipatório, na defesa da liberdade e da dignidade humana; e, sobretudo, um clima de obscuridade e opressão em contraposição a um ambiente diversificado, pro-activo e descomplexado.

Não entendo como há quem queira viver numa sociedade e no país da primeira imagem, em crise económica, com desemprego acima dos 10%, com uma sociedade civil mansa e amorfa, que não empreende, que não investe nem projecta, acomodada ao Estado e ao state of affairs, que não cria e não se interessa por aqueles que a constituem. Sr. Presidente, obrigado por hoje também não ter sido – no que toca aos actos, pelo menos –  uma dessas pessoas.

Anúncios

3 Responses to “Esses tais assuntos que “verdadeiramente interessam ao país””

  1. daniela Says:

    Nunca percebi muito bem como é que algumas pessoas se escudam na ideia de que não era importante porque há assuntos mais importantes neste momento para o país. Nunca direitos cívicos e avanços sociais podem ser menos importantes, principalmente porque ambas as coisas podem ser feitas ao mesmo tempo. Não foi esta lei que fez com que o combate à crise económica se atrasasse! É no mínimo uma hipocrisia tentar discriminar minorias com base em argumentos desse género.
    Agora já só falta a adopção e esta minoria vai poder passar a fazer dos “cidadãos de primeira”. Hip Hip Hurray

  2. Belmiro Oliveira Says:

    Leitão, hás-de saber melhor que eu que Stonewall Inn foi há mais de 40 anos, quase 41, para ser exacto. Isso é aparentemente despiciendo, mas nem tanto se pretenderes dar o imenso salto entre o reconhecimento de direitos a minorias de qualquer tipo e o crescimento económico.
    Não consigo ver um filamento que seja que relacione estes dois fenómenos, seja de causalidade seja de mera relação, e a data em causa, 1969, não ajuda o teu argumento (se é que o compreendi): o mundo, e os EUA, conheceram nos 30 anos que precederam os motins de Stonewall Inn o mais espectacular período de prosperidade económica, e mesmo assim a polícia lá foi desancar nos gays.
    Em termos muito mais vagos, só podemos dizer que aparentemente existe uma relação entre liberdade e crescimento económico. E mesmo isso está a ser posto em causa pela China, se não o foi pela URSS. Porque apesar do irremediável e absoluto fiasco dessa experiência, ela conseguiu transformar o mais atrasado dos países europeus numa superpotência mundial (que depois se autodestruiu).

    Isto dito, apoio a liberalização da instituição casamento a pessoas do mesmo sexo. Só não lhe vejo relação com “empreendedorismo”, “desemprego”, “investimento”.

    Daniela, o argumento da indisponibilidade de agenda é fraco, fraco, fraco. Até porque não é coisa nenhuma que requeira um grande envolvimento, um grande debate social. E não deu muito trabalho a redigir a nova lei. Tanto quanto sei foi só escrever, ou apagar, umas palavrinhas nos artigos adequados do código civil. É reconhecer o direito, e já está: “One motion, right off!”
    Mesmo que fosse necessária a célebre desaparecida “discussão da sociedade civil”, ou lá o raio que lhe chamam, acho que o P. Mexia tem razão quando diz que em Portugal toda a gente sabe que isso não passa de um Prós e Contras sobre o assunto e já está.

  3. pedro leitao Says:

    Queria ter dito há 40 anos sim. Desculpa a gralha. Estas contas… x)

    Com o post não queria estabelecer um paralelo entre Stonewall 1969 e Portugal 2010, e muito menos relacionar direitos a minorias com crescimento (pelo menos de forma directa). Isso seria assunto para vários posts com dezenas de parágrafos.

    Mais simples do que isso quis mostrar que a forma como as sociedades (em geral, não só a portuguesa e a americana) lidam com as “injustiças sociais” – sentidas pelas minorias em causa, ignoradas pela maioria, até certo ponto – diz muito das forças que dinamizam a própria sociedade e que, creio eu, afectam também o comportamento económico dos indivíduos na e para com a mesma sociedade.

    Numa sociedade, a capacidade que um grupo tem para se constituir como movimento de lobby e de se formar numa organização com objectivos (outputs) a atingir revela em maior ou menor grau a mesma dinâmica que fomenta o empreendedorismo e, por que não, a inovação. Não consigo conceber actualmente uma economia forte e empreendedora sem uma sociedade civil em que exista este emaranhado de grupos, organizações e instituições a competir entre si por objectivos não-económicos (sociais, políticos, culturais…), muitas vezes antagónicos e incompatíveis.

    O que quis sublinhar entre as duas imagens (o princípio da constituição do Movimento Gay em Nova Iorque, ainda no seu estado de ebulição, e a forma organizada que esse movimento assume no presente – forma essa que, felizmente, também já se vê em Portugal) foi a passagem de uma realidade subterrânea a uma vontade organizada, pró-activa, que tem de ter lugar numa sociedade livre e diversificada, que não reprime mas formaliza em processos competitivos e civilizados as forças que emergem de dentro dessas sociedades.

    Sempre vi o activismo deste tipo como algo muitíssimo saudável e com efeitos muito positivos quer para a política quer para a economia. O que critiquei foi essa postura paternalista de desprezo pela dinâmica natural da sociedade que referi, em prol dos assuntos “que interessam ao país”, os assuntos “sérios” e que supostamente constituem o alto desígnio da nação. Mas que adianta pensarmos e reflectirmos sobre os temas do desemprego e da crise sem que isso se traduza em acção? Vale a pena sacrificar toda a nossa actividade civil a essa reflexão colectiva? Ficamos todos mais conscientes do marasmo em que estamos, é verdade. E agora?


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: