Há um blogue de um crítico de cinema moderadamente interessante que leio de vez em quando. No último post que li, o gajo pedia críticas mais sinceras sobre o último filme do Godard, que ele apresentou em Cannes. Sinceras sobre a sua ignorância. Diz o gajo:

…just once. Just once. Really. Just once I’d like to see one of the Twitterific Kidcrits,™ or even one or two of their venerated elders, file a review that reads something like this: “I didn’t really like [Film X], I didn’t find it engaging on the levels I’m accustomed to, but then again, I also really didn’t understand a lot of the allusions in the film and I’m not particularly well-versed in the philosophical precepts that the movie seems to be extrapolating from. So while I didn’t like it, I also have to admit that I didn’t get it, and that at some level, I’m really underqualified to deliver an entirely reliable assessment of it.”

Esta é a merda sensata que nunca se lê. Mas até há boas razões para não se ler. Artigos/críticas/posts, equilibrados, ambíguos, fundamentalmente indecisos sobre algum assunto, mesmo que mais próximos da verdade ou de outra coisa qualquer do género com outro nome, dão leituras menos interessante, resultam em textos menos apelativos. Claro que isto não é absoluto, e o talento para escrever consegue saltar com sucesso sobre resmas de obstáculos, mas é muitas vezes verdade.

Não sei é se isto é uma razão para escrever, ou uma razão para não escrever.

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Cavaco Silva promulgou há bocado o diploma que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, com aquela habitual pose de frete institucional de quem quer despachar estes fait-divers para atacar as questões sérias que afligem todos os portugueses. Escolheu mal o dia para bater o ralhete já que – e a política deve tanto, mas tanto, ao domínio do simbólico – se comemora hoje o Dia Internacional Contra a Homofobia. Há precisamente 20 anos, a OMS retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais.

Duas imagens à vossa consideração,

A primeira fotografia foi tirada no Stonewall Inn de Nova Iorque, há 30 anos, durante os célebres motins que marcaram o início o Movimento Gay por todo o mundo.

A segunda foi tirada na Rua Passos Manuel, no Porto, durante a  Marcha do Orgulho LGBT de 2009.

Da primeira para a segunda não muda apenas a data e o local; vemos confrontos entre manifestantes e a polícia (0 Estado) na primeira, temos manifestantes pacíficos na segunda; uma subcultura subterrânea considerada como lixo social e arrumada em guetos decrépitos, um movimento aberto à sociedade, emancipatório, na defesa da liberdade e da dignidade humana; e, sobretudo, um clima de obscuridade e opressão em contraposição a um ambiente diversificado, pro-activo e descomplexado.

Não entendo como há quem queira viver numa sociedade e no país da primeira imagem, em crise económica, com desemprego acima dos 10%, com uma sociedade civil mansa e amorfa, que não empreende, que não investe nem projecta, acomodada ao Estado e ao state of affairs, que não cria e não se interessa por aqueles que a constituem. Sr. Presidente, obrigado por hoje também não ter sido – no que toca aos actos, pelo menos –  uma dessas pessoas.

Boogie Economics

Maio 16, 2010

«(…) the ‘business barometer’ [was] developed at Harvard by Warren Persons (1878-1937) as a method of forecasting the cycle*. There was also Henry Ludwell Moore (1869-1958) at Columbia University, who sought, like Jevons,to establish a link between the business cycle and the weather. A few years later, in 1923, he switched from the weather to the movement of the planet Venus as his explanation. Moore’s work is notable for the  use of a wider range of statistical techniques that were employed by other economists at this time.»

*business cycles: ciclos económicos (flutuações do PIB)

Sr. Moore, ouça quem percebe do assunto:

Don’t blame it on the sunshine
Don’t blame it on the moonlight
Don’t blame it on the good times
Blame it on the boogie!