MCs Macro

Fevereiro 25, 2010

Se entenderem à primeira estão automaticamente qualificados para o cargo de vice-presidente do Banco Central Europeu.

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p.s.

Fevereiro 25, 2010

Quem deambular pela biblioteca lá da faculdade e tropeçar no primeiro volume do “History of Economic Analysis” do austríaco Joseph Schumpeter, há-de fazer um simples favor a si próprio: abrir o livro e lá descobrir um dos raros vestígios de humanidade presentes nas incontáveis estantes de literatura da especialidade; no verso da capa, mal colado, alguém escreveu num post-it amarelo:

Coração vou ter aula às seis e já fui. Aproveito e vou tirar umas fotocópias. Bom estudo. Beijinho.

Esta é, tem de ser, devia ser, a nota introdutória de todas as edições da obra. As suas 1184 páginas perdem todo o sentido sem este post-it. Afinal, para o livro também contribuiu uma certa Elizabeth Boody Schumpeter que (e porque não?) também teria por hábito tratar o marido ternamente por coração.

(Quem descobriu esta peróla também revelou ao mundo (a nós os quatro, entenda-se) a promíscua sexualidade de John Maynard Keynes, entre outros tesouros. Estás no bom caminho, Belmiro)

Da entrevista ao i:

«Faz amanhã [hoje] 42 anos, está na meia-idade. Era isto que imaginava vir a ser quando era miúdo?

Sempre pensei vir a ser professor. Sempre fui atento, vivi o 25 de Abril intensamente, aos 10 anos sabia a composição dos governos de cor – enquanto os meus amigos sabiam as equipas de futebol.

Lembra-se do 25 de Abril? Tinha 5 anos!

Tinha seis. Lembro-me porque o colégio privado onde estava foi invadido por estudantes do liceu de Gaia. E o meu pai chegou para nos ir buscar ao meio-dia e foi ao RASP [Regimento da Artilharia da Serra do Pilar] buscar o batalhão para identificar os estudantes e para os mandar para casa. E já não tivemos aulas à tarde. Apesar de ter seis anos, lembro-me bem porque num colégio de freirinhas de repente entra uma manifestação de jovens de 15 e 16 anos, aos gritos, e não sabíamos porquê. Nessa tarde a minha mãe acabou de bordar um pullover com dois elefantes vermelhos – que ainda guardo. E depois a família do meu pai foi muito atacada depois do 25 de Abril, tivemos pinturas murais na casa…»

Há alguma alma caridosa experiente em photoshop que ponha o Rangel vestido com uma camisola com dois elefantes vermelhos? Só pela piada.

Consta que durante esta semana o programa Ídolos recebeu* mais de um milhão e quinhentos mil telefonemas para a escolha do vencedor da segunda edição do programa. Nem admito que 15% da população tenha votado, a pagar, num programa televisivo quando apenas 40% da mesma população se dá ao trabalho de votar, de graça, nas eleições nacionais; quero, sim, pensar que os mais aficionados por este fenómeno tenham votado várias dezenas de vezes – hipótese que reduz a paranóia social a algumas dezenas de milhares de pessoas. Feitas as contas por alto, efectuou-se uma transferência – só nesta semana! – de 1.080.000€ do rendimento das famílias** para a produção do referido programa.  Somem a este valor o dinheiro gasto todos os domingos durante os últimos três, quatro, cinco meses que o programa esteve no ar e concluímos que uma fatia jeitosa do PIB português foi afecta à missão colectiva de mandar um gajo estudar música em Londres. Quando se diz que um dos principais problemas do país é o de investir pouco na educação penso que não é este tipo de investimento que os especialistas recomendam.

*0.6€ + IVA

**[Consumo = Rendimento Disponível – Poupança (ou Investimento)]; das aulas de Macro.

As estátuas do Windmill

Fevereiro 12, 2010

Houve um tempo em que eram considerados audazes aqueles que se levantavam para troçar do establishment de forma audível, provocatória, impressionante mas sempre, sempre, com reverente dedicação ao público e à arte.

Quando em 1930 Laura Henderson ficou viúva, acompanhava-a então uma vasta fortuna conquistada pelo seu marido no negócio da transacção de matérias primas. A septuagenária socialite prontamente recusou seguir o caminho convencionado para as senhoras da sua posição: os clubes de croché, os intermináveis brunches no countryside inglês, os sumptuosos eventos de caridade – tudo isso a entediava incrivelmente. Em vez, decidiu comprar, recuperar e gerir um velho teatro no West End londrino.

Por irreverente inspiração da proprietária, o Windmill Theatre tornou-se na primeira casa de espectáculos inglesa e exibir em palco senhoras nuas – totalmente nuas, isto é. Sim, é verdade que do outro lado do Canal já há muito que Josephine Baker dançava e rebolava nas Fólies Bergère apenas com uma saia de bananas. Mas na fria e austera Inglaterra sequer o pensamento de isso acontecer em território nacional era indecoroso e obsceno; assim o sentia especialmente a classe dirigente inglesa.

A grande dor de cabeça de Mrs. Henderson nessa louca empresa sempre foi a censura. Felizmente, tinha a capacidade, os meios, os contactos mas, sobretudo, a afronta de ridicularizar com perspicácia as proibições que os defensores da ordem a da moral impunham aos shows de nus do Windmill. Argumentou Mrs. Henderson que se a nudez podia ser apreciada publicamente nas estátuas das principais praças e nos quadros dos museus mais visitados, porque não no teatro? “Porque as figuras não se mexem”, retorquiu a sábia voz da censura. O Windmill Theatre tornou-se, assim, na primeira casa de espectáculos inglesa a exibir em palco senhoras nuas, totalmente e obrigatoriamente imóveis, estáticas, do princípio ao fim de cada apresentação.

Com a guerra, a nightlife londrina desvaneceu a uma última luz na ribalta, na Great Windmill Street, a única cortina que se conservou hasteada durante o Blitz – as 57 noites consecutivas em que Londres foi bombardeada pela Luftwaffe. O Windmill recebia todas as noites soldados prestes a embarcar para as trincheiras, familiares desesperados, civis desesperançados, deputados, membros do governo e da casa real. A censura, a mesma que havia decretado o fecho compulsório de todos os teatros da capital, assistia impreterivelmente noite após noite aos espectáculos musicais da Revudeville com as suas estátuas exóticas, indecentes e demasiado humanas. A música era ensurdecida pela chuva de destruição que assolava londres. Mas no palco, ao léu, frontal e puro, estava um qualquer símbolo de indecência ou liberdade. E por esse símbolo, lá fora, travava-se uma guerra.

Na imprensa (outrora livre), mais um artigo de opinião censurado pelo Governo. Mas não aqui:

“O Fim da Linha”

Mário Crespo

«Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.»

publicado aqui.