Mesmo assim, que racionalidade explica que o Turismo de Portugal conceda o mesmo incentivo financeiro ao Fantasporto [maior festival de cinema de Portugal, 25º maior festival de cinema do mundo] e ao Campeonato Mundial de Jovens Pasteleiros em Lisboa, como esta semana observou o vereador da Câmara do Porto Vladimiro Feliz? Ou que o projecto de animação dos coretos de Lisboa tenha tido, em 2008, o mesmo apoio atribuído à primeira edição do Red Bull Air Race, no Norte?

Não se descortina qualquer critério que justifique tamanha discrepância. Mesmo que ambos possam ser indigestos, para o Turismo de Portugal, um festival de cinema vale tanto como um festim de pastelaria. Afinal, o que distingue um festival de cinema de um campeonato de pastelaria é apenas o local onde se realiza. (Público 26/12)

Há quem ache que é daquelas coisas que se dizem da boca para fora, que exaltam o espírito e aquecem o coração, e que logo caem em saco roto. Mas eu digo-o com a maior honestidade intelectual e sentimental que me considero mais Portuense (mais Nortenho, mais Eixoatlântiquês) que Português. E na verdade, comprova-o esta notícia, só posso ter orgulho nisso.

Jim, Judy e Plato

Dezembro 26, 2009

«O casamento de duas pessoas do mesmo sexo é uma das nossas questões “fracturantes” (aliás, na televisão tudo é “fracturante”, desde um comício em Alguidares de Baixo até ao Benfica – Porto). É normal que suscite os mais contraditórios pontos de vista. Extraordinário é que haja políticos que abordam a “família” como um dado inerte, congelado numa zona imaculada da história do mundo. Será que não viram James Dean no filme Fúria de Viver? Será que não sabem que a história da família é também a história das suas permanentes transfigurações? O filme já tem mais de meio século e, pelos vistos, ninguém comprou o DVD. Um dia destes, talvez surja em vez da telenovela, essa grande escola familiar e sexual.» Este parágrafo do João Lopes, na revista Notícias TV do JN, é demasiado fecundo para ser despachado numa publicação sobre programação televisiva, entre grelhas e entrevistas a famosos.

Neste Natal o James Dean vem-me parar à mesa por tudo; mas na questão do casamento homossexual apresenta-se particularmente oportuno, sobretudo pelo filme do Nicholas Ray, Rebel without a cause, em que a invenção de um conceito próprio de “família” aparece como a única hipótese dos protagonistas cohabitarem com uma realidade que lhes é hostil e estranha, de sobreviverem num mundo “normalizado”. O que se tem debatido sobre a questão anda precisamente à volta disto. Faço, por isso, minhas as palavras do João e recomendo que vejam ou revejam o filme mesmo antes da petição que reclama um referendo entrar no parlamento.

Christ without a cause

Dezembro 24, 2009

Provavelmente o melhor filme a passar na televisão nestes dois dias. Giant, de George Stevens, hoje à tarde no Hollywood (e amanhã The Man who shot Liberty Valance, no mesmo canal).

por falar em Nietzsche

Dezembro 24, 2009

Já não gosto do Natal. O folclore de luzes e prendas e música no coração que marcava as consoadas da minha infância deixou de me entusiasmar. Acabo de chegar a casa e tento esquecer esta época que agora significa para mim pouco mais que estudo, mau tempo e um estado de deriva que o corte abrupto com a rotina provoca sempre. Chateio-me. Estas noites são terríveis, não convidam à conversa, nem entre copos. É difícil ficar a conhecer melhor as pessoas, stressadas com o protocolo natalício, e acabo por me lembrar que só em Fevereiro volto a ter uma rotina (gostava de perceber a relação que tenho com esta palavra). Está tanto frio para conversar que preferimos ficar a ouvir pela milésima vez a “All I want for Christmas is you” ou o caralho, do que arriscar e dar aquele primeiro passo no arame a pensar “here goes nothing”. E chego a casa e leio os jornais que se foram empilhando durante a semana (grande crónica do Lomba no Público de ontem, grande reportagem do i sobre as lolitas portuguesas), e consulto os emails pela trigésima vez hoje e penso “não posso ver um filme a estas horas porque amanhã tenho que estudar e ajudar a minha mãe a arrumar a casa, e por a mesa, e lavar o cão” (temo que a minha escapadinha a Braga para  beber licor ecomer bananas tenha que ficar para o ano, com muita pena…). Vou escrever qualquer coisa no shakira. Mas, foda-se, amanhã é véspera de Natal, vou escrever sobre o quê? Lá acabo por ouvir uma música do Glen Miller para entrar no “espírito” – estou com muita preguiça para lutar contra o establishment. Amanhã vingo-me e venho para aqui escrever sobre as parecenças entre aqueles estandartes com o menino Jesus e a bandeira nacional-socialista.

Bom Natal.

e venham mais vinte!

Dezembro 14, 2009

Programação  Medeia 20 anos – Porto

19 e 20 Dezembro

Sobre a Cinemateca

Dezembro 13, 2009

A exibição de Cinema Clássico na cidade do Porto – A extensão da Cinemateca Portuguesa à cidade do Porto (da altura do Circuito, documento obrigatório sobre esta questão)

A Cinemateca Portuguesa tem como apêndice nominativo o cognome “Museu do Cinema”. Museu. Biblioteca. Arquivo público de conhecimento e arte. É essa a função primordial de uma Cinemateca. Ninguém pode exigir outro papel a estas instituições que não o de divulgador da história do Cinema, pelos filmes. Do resto tratarão outras pessoas e entidades: cineclubes, festivais, escolas, exibidores, etc. A Cinemateca, ou outra merda* qualquer com nome diferente mas que cumpra a função mencionada, é condição essencial para todas estas instituições funcionarem em rede. Cada qual com a parte que lhe compete. A Cinemateca não irá asfixiar nem a Medeia, nem qualquer Cineclube, nem tornar o Fantas obsoleto (poderá roubar público à Lusomundo, o que será certamente lamentável). Agora cuidado, há uma série de merdices* que podem comprometer o projecto: questiúnculas organizativas entre Ministério e Cinemateca, localização (a Casa das Artes não tem metro), arquivo (a Casa das Artes não tem centro de documentação/ arquivo de películas), ambições pessoais (há muita gente ligada à Cultura na cidade mortinha por deitar o dente ao bife), problemas de comunicação e divulgação, etc etc. Por último, a Cinemateca não deve ainda esquecer outra coisa. Por ser “do Porto” não significa que se tenha de restringir à área geográfica do município. Lisboa enriquece sozinha, à custa de todo o país. Mas o Porto, não sendo centro de poder político (nem mesmo na região), há muito que se devia agarrar, para não definhar, ao território entre Aveiro e Caminha, Viana e Bragança – sobretudo no que toca a assuntos culturais. Isto porque não há so públicos no Porto, como também não há só cineclubes, exibidores, festivais e escolas no Porto. Há muita vontade de fazer coisas com qualidade aqui, em Braga, na Póvoa, em Cabeceiras de Basto. E se realmente houver criatividade e imaginação é o bastante, seja a 300, 400 ou a 500 quilómetros de Lisboa.

*Disse-o o Lula, digo-o eu.

Acho que nunca me ri tanto nos primeiros 7 minutos de um filme.