Desmancha prazeres

Novembro 13, 2009

Encontrei ontem uma t-shirt de que gosto particularmente e que andava desaparecida há já demasiado tempo. Comprei-a em Madrid, numa loja meio designish, e tem ao peito um desenho que, no fundo, representa o nosso poder divino no que toca a decidir quantos pintos vão para o tacho e quantos para o aviário (ou seja, os que não chegam a provar o doce sabor da vida e os que são forçados a viver cada dia num autêntico inferno… para depois acabarem no tacho). Achei piada andar com estas provocações morais ao peito, por isso decidi comprar a t-shirt.

Estava a ler um daqueles calhamaços que tenho à cabeceira – e que lá ficam em média durante ano e meio – quando me deparo com o seguinte parágrafo:

«O ser divide-se segundo a potência a o acto. Um ser pode ser actualmente ou apenas uma possibilidade. Uma árvore pode ser uma árvore actual ou apenas uma  árvore em potência, em possibilidade, por exemplo, uma semente dessa árvore. Mas há que ter presente duas coisas: em primeiro lugar não existe uma potência em abstracto; uma potência é sempre potência para um acto; isto é, a semente tem potência para ser azinheiro mas não cavalo, e se a tem para ser azinheiro não a tem para ser pinheiro. Quer dizer que o acto é anterior (ontologicamente) à potência. Como a potência é potência de um acto determinado, o acto já está presente na própria potencialidade. O azinheiro está presente na bolota, e a galinha no ovo, pela simples razão de que não há ovos sem mais consequências, ovos em abstracto, pois o ovo é por exemplo um ovo de galinha, no qual a galinha já está implicada, sendo a galinha que confere a potencialidade ao ovo.»

Já não bastava reduzir a minha reflexão moral sobre o assunto à troça filosófica, como vem também dar uma possível (e irritante) resposta àquele indecifrável enigma da nossa infância com que os adultos gostam de vincar a sua superioridade mental: quem veio primeiro, o acto em potência ou o acto em si? Aposto que o Aristóteles apanhava dos meninos grandes na escola.

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5 Responses to “Desmancha prazeres”

  1. Tomás Says:

    Lendo o teu post do inicio ao fim, surge intuitivamente a melhor resposta a essa pergunta estupida que faziam quando eramos crianças e que na altura nunca me ocorreu: “Vai tudo pró tacho que é que interessa!?”

  2. daniela Says:

    o dos seres em potência é a desculpa mais usada pelos maluquinhos da ecologia para acharem que não podemos fazer nada sequer às pedrinhas da estrada não vá ela ter grãozinhos de polenzinho que pode dar bonitas flores… não devias ler essas coisas :P

  3. pedro leitao Says:

    ihh.. maluquinhos da ecologia! Vou ter que fazer queixa ao Bloco de Esquerda, Daniela xD

    Não, a sério, eu gostei da abrangência da teoria: por exemplo, posso considerar um ovo como um bolo em potência. É uma solução mais carinhosa para a minha mente perturbada e não levanta nenhum conflito moral ;)

  4. pedro leitao Says:

    gastronómico, talvez.

  5. ondamarela Says:

    Vá lá, não sou o único a gostar de provocações dessas nas t-shirt’s.


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