A campanha continua

Outubro 1, 2009

[A pedido do Ramires trago um cheirinho da campanha eleitoral do Porto ao shakira.]

Cultura e Sociedade

«Cultura, diz respeito a todas os aspectos espirituais, materiais, intelectuais ou afectivos que caracterizam uma sociedade ou grupo humano. Inclui, além da arte e da literatura, os modos de vida, os direitos humanos, o sistema de valores, tradição e religião. UNESCO

Cultura é, numa palavra, a expressão de um povo. Diz-se que uma cidade não sobrevive sem Cultura; nada de mais verdadeiro. Aliás como poderia, sendo parte intrínseca da sua identidade. Sendo assim, se o povo de uma cidade levar uma vida difícil e ingrata, se as pessoas que dele fazem parte viverem mal e suportarem condições injustas e degradantes, se não puderem confiar nos seus representantes para que cumpram com as suas responsabilidades, a Cultura de tal povo não será mais que o seu próprio reflexo: pobre, apática e postiça.

A expressão cultural só terá bases para florescer numa cidade se nela estiverem reunidas as condições para que os seus habitantes vivam, sonhem e criem digna e livremente. O estado de degradação dos bairros sociais, o abandono da Baixa, o despesismo irresponsável que ignorava a tragédia social, o clima de insegurança, enfim, todo o ambiente que caracterizava a cidade em 2001, exprimia também a vida cultural que então existia: pobre, apática e postiça.

Dizem os críticos do actual executivo que, ao longo dos dois últimos mandatos, o seu Presidente desprezou e maltratou a Cultura. Não conseguem perceber que, bem pelo contrário, criou as condições necessárias para que possa haver no Porto uma dinâmica cultural e artística como nunca se pensou possível na cidade (provavelmente nem pelos responsáveis da Porto 2001), e que mostra já efeitos de um promissor futuro.

Ao atacar com eficácia e atenção os mais graves problemas da cidade (em cima referidos) o executivo possibilitou o crescimento de um factor chave para a afirmação da cultura: público (ou melhor, públicos). Por outro lado permitiu o desenvolvimento de projectos artísticos originais e genuinamente portuenses, que encontraram nesses públicos uma grande adesão e incentivo para continuar. Finalmente, deu ao público e aos criadores a liberdade para decidir o que ver e o que criar. Desta forma, o acesso à cultura tornou-se mais democrático e transparente, promovendo ainda a saudável interacção entre espectador-criador, que permite a evolução cultural.

Perante isto, cabe-nos no próximo dia 11 escolher um de dois cenários: Porto 2001 ou Porto 2009, com a plena noção de que se optarmos por um retrocesso desta vez será irreversível.»

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8 Responses to “A campanha continua”

  1. pmramires Says:

    não fosses estar com receio…

    shakira primeiro, o porto em segundo :D


  2. Com o devido respeito e assumida surpresa, estão doidos. Em primeiro lugar, não há nesse texto uma clara noção do que foi a Porto 2001 e o que significou para o tecido cultural e para a regeneração urbana da cidade – e de como isso permitiu muito do que de melhor hoje o Porto tem. Depois há um total desconhecimento dos processos que levaram ao actual “dinamismo cultural” da cidade (as aspas estão lá porque, apesar de promissor, ainda é um dinamismo incipiente e na maioria das vezes é pouco cultural). A verdade é que não há nem nunca houve uma política cultural por parte de Rui Rio. Mais exactamente, não é sequer um conceito que domine ou lhe interesse. Todo o “dinamismo cultural” da cidade nos últimos 8 anos tem partido da iniciativa privada ou dos equipamentos públicos em nada dependentes da autarquia (TNSJ, Carlos Alberto e Casa da Música, por acaso uma das principais heranças da Porto 2001). De resto, houve um desprezo constante dos agentes culturais da cidade e a implosão do principal equipamento cultural municipal. Dizer que foi o Rui Rio que permitiu a actual “afirmação da cultura” no Porto é um insulto à inteligência alheia e não há-de colher grande concordância de nenhum dos protagonistas culturais da cidade (desde criadores a programadores e gestores das muitas iniciativas privadas). Para dizer a verdade, talvez nem o Rui Rio concorde. A Cultura simplesmente não lhe interessa para além da sua noção de entretenimento, não o imagino a fazer dessa área cavalo de batalha. A sua consciência estará certamente tranquilíssima.


  3. Sublinhando “o devido respeito” e a “assumida surpresa” do comentário anterior, devo dizer que não há um parágrafo neste texto que não dê vontade de chorar — deve ser de tanto piscar os olhos para certificar-me de que estou a ler bem.

    Voltarei aqui para comentar devidamente, assim que puder.

  4. pedro leitao Says:

    Pedro, a Capital Europeia da Cultura fez todo o sentido em Roterdão que, em 2001, era o centro industrial da Holanda e tinha o porto de mar mais concorrido do mundo. Numa cidade socialmente equilibrada assumir a cultura como prioridade (orçamental e política) faz todo o sentido.
    Em 2001, nenhum dos 45 bairros sociais do Porto apresentava as mínimas condições de habitabilidade, falamos de mais de 52 mil pessoas que viviam em condições sub-humanas. Lembrar-se-à certamente, já que é o caso paradigmático, do projecto que envolvia jovens do bairro de Aldoar na interpretação de uma ópera. Digam-me honestamente que opção política terá mais impacto cultural: esta medida efémera e necessariamente inconsequente no estado em que o bairro estava, ou a recuperação das casas e envolvente do bairro pelo qual a Câmara tem obrigatória responsabilidade social?

    Mais, a cidade deu-se ao luxo de aprovar projectos para os quais não existia um objectivo concreto nem um plano de viabilidade futura. O exemplo mais escandaloso é certamente o do Edifício Transparente, obra emblemática do Eng. Nuno Cardoso – a Câmara chegou mesmo a admitir que não sabia que uso dar ao imóvel. Mas há mais: para a Casa Manoel de Oliveira e para a Casa dos 24 nunca foi elaborado um projecto cultural ou o qualquer outro operacionalmente sustentável, para nem falar na sua viabilidade financeira.

    Verdade que nem tudo foi mau e a intervenção no espaço público foi, de longe, a maior contribuição dessa sociedade para o actual panorama da cidade. Mas essa intervenção não representa nada de extraordinário no que deve ser o papel de uma Câmara no cuidado da cidade, tanto é que desde o fim da Porto 2001 o investimento na no espaço urbano da baixa tem sido contínuo ao longo dos anos. Claro, foi pelo desleixo que antes reinava no tempo do executivo do PS que a intervenção em 2001 na baixa foi tão sentida; tivesse a Câmara antes de 2001 cumprido com as suas responsabilidades e a baixa nunca teria batido no fundo como bateu.

    A minha tese do contributo da política “anti-cultural” do Rui Rio para a revitalização da cidade baseia-se nisto: que qualquer projecto cultural, a nível municipal, para ser sustentável precisa de um grande investimento em áreas extra-culturais, principalmente de vertente social. Se houver pobreza e degradação na habitação social há menos gente para assistir a eventos culturais (se tivermos em conta toda a população que dela usufrui será menos um quinto); se houver crime e insegurança nas ruas muito dificilmente as pessoas sairão de casa para ver um espectáculo; se não houver transportes ou boas acessibilidades idem aspas; se não houver um tecido económico saudável na cidade a cultura não será sustentável.
    Mesmo que nenhuma das partes esteja disposta a admitir os efeitos das suas políticas “anti” e “pró” cultura (se quisermos extremar o assunto) se cada uma se ocupar da sua devida função, o público portuense tratará do resto. Isto é, se a Câmara garantir boas condições de vida às pessoas, elas tendencialmente preocupar-se-ão em procurar mais bens culturais; e os criadores, os novos e os já instalados, terão incentivo de oferecer e aperfeiçoar a sua arte para que o maior número de pessoas possa dela beneficiar.
    Se não for isto a explicar a súbita revitalização da baixa não sei que outra razão poderá haver. Expliquem-me por favor.


  5. Há nessa resposta uma enorme confusão. Devo começar por recordar que a Porto 2001 não foi uma iniciativa municipal e que a maioria do financiamento esteve dependente do Governo e de fundos europeus diversos (como o FEDER, por exemplo). Logo, essa velha formulação demagógica de que é errado gastar verbas municipais na Cultura quando há tantos pobrezinhos na cidade, não colhe, para além de evidenciar uma falta de visão estratégica para o país e para a cidade. As políticas culturais e as políticas sociais não são incompatíveis e são simultaneamente imprescindíveis. Cultura não é entretenimento, é formação, para além do papel de dinamização que tem, nomeadamente em tecidos deprimidos. Enquanto isto não entrar na cabeça de quem governa, este país continuará atrasado e a funcionar com políticas de remendo. Que traduz, em grande parte, a visão curta e contabilística de Rui Rio.
    De qualquer modo, não sei como se criticam os investimentos e os tais eventos culturais efémeros da Porto 2001 e depois se defende o investimento municipal em eventos automobilísticos tão ao agrado pessoal de Rui Rio. Isto com tanto pobrezinho pela cidade. Mas coerência nunca foi o forte de Rui Rio (nem o espírito democrático, não esqueçamos).
    Também lembro que, se o Edifício Transparente, no meio de incontáveis intervenções da Porto 2001, foi um erro claro, o mesmo não se pode mesmo dizer das principais iniciativas e, de qualquer modo, relembro que era tarefa de Rui Rio (incumprida com distinção) saber aproveitar equipamentos como a Casa Manoel de Oliveira.
    De resto, faço notar que a minha resposta, ao contrário da resposta à minha resposta, não assenta numa observação vaga e empírica. Pelo contrário, assenta na experiência de anos de quem, como arquitecto, estudou a fundo intervenções urbanas, como a do Porto 2001, e a de quem, como agente cultural, sabe o que é gerir e programar projectos culturais com uma dimensão assinalável. Por isso, e por conhecer muito bem o Porto e muitos dos projectos e agentes culturais que o têm revitalizado, tendo mesmo acompanhado os bastidores da criação de alguns, sei que a relação entre Rui Rio e o novo dinamismo da cidade é zero. Sei como surgem esses projectos, com que motivações, com que expectativas, com que esforço e sei como nada disso se deve a políticas camarárias. São projectos pessoais que procuram, em muitos casos, remar contra a maré – e nessa sim, Rui Rio tem tido um papel.
    Sei também o que é viver no Porto e não sinto em geral a cidade mais segura. Se a segurança tiver aumentado na Baixa, por exemplo, tal deve-se ao aumento de pessoas nas ruas, que estão lá porque surgiram espaços de iniciativa privada criado com fundos privados, sendo os únicos responsáveis pela tal revitalização. Acaba por ser um insulto à iniciativa e ao esforço de cada uma dessas pessoas a entrega dos louros a um político que nada fez por isso.
    Entretanto, a política camarária de Reabilitação da Baixa revelou-se um fracasso e pouco ou nada se fez, não há mais policiamento, o lixo continua a ser uma vergonha portuense, não há um esforço camarário para concertar estratégias entre os vários agentes culturais, não há qualquer tipo de incentivo. Também não vejo a cidade socialmente mais justa, talvez porque não veja políticas sociais consistentes e com uma visão de longo prazo.
    Mas, centrando o discurso na Cultura, perceba-se que não seria por andarem todos com os bolsos cheios que o Porto veria o seu público cultural a aumentar e o seu tecido cultural a alargar-se e aprofundar-se. Isso é uma ideia errada de quem não entende as dinâmicas do público, de como se forma, de como se torna ou não participativo. E de quem se esquece que a Cultura é um território de insistência, de transformações lentas e que se dá mal com demagogias e vistas curtas. É preciso apostar na formação cultural das populações, dos que mais e menos têm, e isso, em grande parte, deve partir da autarquia. O que manifestamente não sucede neste caso.

    ps: Esclareça-se que eu não pertenço a nenhuma das “partes”, visto que sou completamente apartidário e ninguém me vê a escrever em blogs de candidaturas políticas ou sequer a manifestar o meu apoio a um partido em particular. O meu único interesse nesta história é o Porto, nomeadamente a Cultura, uma das áreas mais irresponsavelmente tratadas por Rui Rio nos seus tristes e perdidos 8 anos de mandatos. Tenho a felicidade de poder ser coerente e sincero nas minhas ideias, que exprimo apenas quando informadas, sem necessitar fazer críticas ou exaltações conforme as conveniências de uma determinada candidatura. É muito triste, por exemplo, ver alguém criticar uma iniciativa cultural de inclusão de populações carenciadas, como a tal Ópera, negligenciando o seu alcance e esquecendo-se que não foi sequer um encargo da autarquia, fechando depois os olhos a iniciativas igualmente efémeras mas com encargos elevados para a autarquia como as corridas de automóveis. Que eu nem critico, a não ser na incoerência.


  6. Antes que não tenha sido suficientemente explícito neste ponto: se não fosse a regeneração urbana e a recriação do tecido cultural durante a Porto 2001, a revitalização “cultural” de que temos falado, não existiria. Não nos actuais moldes, não ali. Mas não dêem valor às minhas palavras. Falem com os que contribuíram directamente para a tal revitalização e verifiquem quantos sentem que devem algo à Porto 2001 e quantos sentem que devem seja o que for a Rui Rio.

  7. pedro leitao Says:

    Pedro, peço desculpa pelo interregno, mas esta semana, entre campanhas, cineclubes e o diabo a sete, tem sido impossível dedicar o mínimo de tempo ao Shakira. Prometo, logo a seguir às eleições, publicar novo post sobre este tema.
    Fico, contudo, um bocado desiludido por saber o que pensa sobre a participação política (em democracia, falo), atitude que considero saudável e pessoalmente gratificante. Não estou proposto em nenhuma lista para a Câmara ou Assembleia Municipal por isso estou consciente que não há qualquer tipo de interferência externa com o meu pensamento político. Participo nesta campanha porque a minha profunda dedicação ao Porto exige um comportamento activo no progresso da cidade, que não se limita obviamente à política. A visão por que luto emana dos valores que defendo e não da polémica do momento ou de qualquer conveniência conjuntural.
    Espero que, em futuras discussões, não volte a apresentar o meu consciente apoio político como descredibilizador da minha argumentação. Se tiver suspeitas, levante-as que eu certamente as esclarecerei.


  8. Pedro, tenho acompanhado suficientemente este blog para acreditar na boa vontade e nas convicções de todos o que nele escrevem, mas sucede que as convicções não dispensam uma reflexão bem informada. Como é óbvio, só posso julgar pelo que leio, mas o que li neste post e nos argumentos entretanto esgrimidos levam-me a crer que há simultaneamente uma profunda dedicação ao Porto e um profundo desconhecimento do que se tem passado no tecido cultural da cidade. Aos meus olhos, a falta de credibilidade está essencialmente aí – não certamente na idoneidade de quem escreve.

    Ironicamente, é por acreditar nas suas convicções e nas suas preocupações culturais que só consigo ler o post como uma adopção pouco crítica das teses da candidatura que apoia. Que, com conhecimento de causa, me parecem completamente delirantes. Relembro ainda que não fui eu a nomear a existência de “partes” a que naturalmente corresponderiam visões diferentes. Eu não poderia, porque considero a questão supra-partidária. Concebo que alguém apoie a reeleição de Rui Rio, mas custa-me que alguém com alguma consciência do que é Cultura o apoie especificamente nesse ponto, quando a realidade o desmentiu diariamente ao longo de 8 anos.

    Quanto ao meu pensamento “sobre a participação política”, deixo-lhe o mesmo desafio que me deixou: se tiver suspeitas, levante-as que eu certamente as esclarecerei. É que talvez haja por aí uma leitura grosseiramente errada do meu pensamento “sobre participação política”.

    (Talvez seja útil acrescentar que não personalizo diferenças de opinião, por mais acesos que sejam os termos da discussão, e deixo uma pergunta: o “você” é mesmo necessário?)


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