Parêntesis

Junho 11, 2009

Com o Bloco como terceira força política é melhor ir dando umas achegas à esquerda que isto de sobreviver na tachocracia é complicado.

[Curiosa entrevista a que Paulo Rangel deu ao jornal I. Quando questionado sobre que livro andava a ler responde “uma biografia de São Paulo“. Na sua relação com a igreja católica diz-se concordar com a posição desta nas questões do aborto e da eutanásia, mas ser totalmente a favor da ordenação das mulheres e do uso de contraceptivos. Continua: “Na moral sexual em geral sou contra: casamento, divórcio, a questão dos homossexuais. Qual o princípio orientador que pauta este emaranhado de prós e contras? Não o diz. Quanto à questão do casamento entre homossexuais: “Eu percebo muito bem as reivindicações dos activistas e das activistas dos movimentos gay, mas acho que sociologicamente também temos que respeitar as convicções da maioria da população portuguesa, que é muito conservadora nesta matéria.” Ah, cá está – o princípio da maioria. Está explicado.

Sobre o crescente relevo que o Bloco de Esquerda vem assumindo na vida política portuguesa: Quem está no poder não se aventura nessa ingrata cruzada que é a “mudança de mentalidades”; prefere apoiar o convencional, tal como é da aprovação da maioria e como garantem os votos. Mas talvez a maioria esteja à espera de ser contrariada, que lhe mostrem novas visões do mundo e da sociedade. Talvez ache que já seja tempo de reciclar a herança moral que ainda trazemos dos tempos do Saudoso. Talvez a vida seja melhor e mais interessante numa sociedade cosmopolita, liberal e aberta. Talvez um pouco de rebeldia e de criatividade nos tire deste lamaçal de inércia,  preconceito e ignorância. Talvez seja isso o que importa e, isso é o que o Bloco representa para um número cada vez maior de portugueses.

Se o governo governa e se o parlamento discute a governação, então quem faz política? Ninguém quer correr riscos, ninguém quer investir em novo “capital político”. Há muito que grandes transformações ideológicas se cozinham nos bastidores do espectro político português mas que se mantêm suspensas já que os riscos são demasiado elevados: o eleitorado pode não aprovar, os militantes podem-se dividir, o poder pode-se perder para sempre. E assim os partidos do centro adiam as suas reformas internas confiantes que garantirão a sua posição dominante por mais algum tempo.

Face a isto temos o Bloco, o único partido político verdadeiramente a fazer política em Portugal, e o que mais tem contribuído para o declínio dos partidos do poder. Simultaneamente é também o que apresenta as propostas mais irresponsáveis e demagogas quando se trata de questões de governação. É um partido que contrasta a sua visão progressista da sociedade e da moral com um marxismo compacto e dogmático. Ataca a burocracia e o aparelhismo mas defende a intervenção pública em todo o domínio social; exalta as forças sociais emergentes ao mesmo tempo que defende a repressão das instaladas. É um outro princípio (não o da maioria) que jaz a esta forma de acção – o da mudança. Este, por si só, é incompatível com o exercício governativo, a cujos titulares os cidadãos exigem responsabilidade, coerência e estabilidade política.

É incrível como os políticos esquecem que os partidos a que pertencem são fundados em princípios absolutos e não corruptíveis pela vontade das maiorias ou pelo desejo de mudança per se. São duas forças que garantem a sustentabilidade do sistema democrático e que o reforçam quando os partidos se concentram em fazer política, e tornam a governação dependente desta actividade – claramente o oposto do que acontece por cá. Assim, a modos de Nostradamus Rebelo de Sousa prevejo, por isso, a continuação do mau tempo político no território português, pelo menos até ao MEP eleger o seu primeiro deputado ou o Bloco Central ficar abaixo de um resultado de 50%. Mazel tov!]

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4 Responses to “Parêntesis”

  1. daniela Says:

    rangel continua a usar um dos argumentos mais falaciosos em relação ao casamento homossexual, o que mostra que a direita continua a ter dificuldade em perceber que a própria moral avançou com o evoluir das mentalidades (claro que não toda a direita porque cada vez mais se ouvem vozes desse lado político a defender o casamento homossexual).
    com ao bloco e ao marxismo, de todas as coisas que já li sobre o partido, percebe-se um claro afastamento às ideias mais ortodoxas, com certas aproximações à social democracia. como qualquer partido de esquerda, é óbvio que tinha de defender um estado forte em certos sectores fundamentais da economia e das áreas ligadas à segurança social. mas o partido em si vale mais por essas mesmas medidas sociais do que propriamente por medidas económicas ou mesmo por políticas que o dotassem de uma capacidade de governação. é natural, é um partido pequeno e recente, com muita gente nova. mas tirando os dois partidos do bloco central, não creio que algum fosse capaz de governar, até porque o comportamento eleitoral dos portugueses nem dá a possibilidade a esses partidos de se organizarem tendo em vista tal possibilidade, por ser tão remota. e daí a perpetuação do “mau tempo político no território português”… votar no bloco central é afinal uma forma de manter as políticas e não uma forma de sair do buraco.

    p.s – o vídeo é absolutamente caótico e agressivo :p

  2. pedro leitao Says:

    Daniela, antes de mais obrigado por teres em consideração este meu desvario político. Resultou simplesmente de uma reorganização de ideias na minha cabeça, não passando disso.
    Mais importante do que não votar no Bloco Central é obrigar os partidos que o constituem a discutir seriamente as questões levadas pelo BE (ou outro partido ou entidade) ao parlamento. O caso do casamento entre homossexuais é exemplo do patético a que o debate de ideias pode chegar na assembleia. Acho que duas horas e meia de “Prós e Contras” na televisão fez mais pelo esclarecimento social e pelo debate político desta matéria do que todo o vai-vem retórico-eleitoralista que os partidos usaram para evitar a discussão aprofundada deste tema, como lhes era exigido pela população.
    Se houve alguma altura em que um assunto foi discutido tendo verdadeiramente em conta a sua complexidade foi aquando do referendo sobre a despenalização do aborto. Aí sim, tivemos o país a reflectir sobre o impacto multidisciplinar da IVG, mesmo em vertentes mais “esotéricas” como a filosófica e a teológica.
    Defendo agora, mais do que nunca, o recurso frequente ao sistema de referendo para voltar a ganhar a confiança da sociedade civil na política, tal como aconteceu fugazmente durante o mês e tal da campanha do aborto. Condição essencial é que as forças sociais tenham a capacidade de elevar o debate político de forma a torná-lo esclarecedor e plural. Jornais, media, movimentos sociais, ONGs, igrejas, artistas, bloggers e demais forças de intervenção devem também assumir a sua responsabilidade em mostrar os partidos como se deve discutir com profundidade e clareza. Isto é, ensinar, basicamente, a fazer política.

  3. daniela Says:

    eu concordo contigo quando dizes que de facto foi deixado à discussão política mais conveniente. o não deixa de ser ultrajante numa sociedade que se pauta pela igualdade de direitos. mas, não posso concordar com a ideia de que ele devesse ser referendado, tal como aconteceu pela ivg, por direitos de pessoas não podem ser deixados ao acaso de um voto muitas vezes motivado por uma moral que nada diz ao direito (isto se eu entendi que defendia essa opção para este assunto).
    quanto ao desvario político, acho que é isso que todos fazemos quando publicamos estes textos em blogues xD

  4. pedro leitao Says:

    Os referendos ao envolver a população na discussão séria e profunda de determinado tema – neste caso o acesso ao casamente civil por casais homossexuais, ou melhor, a forma como a homossexualidade é encarada pela sociedade – são, por si só, factores de progresso social, na medida em que ajudam a esclarecer a opinião pública. Não é por não considerar este [o do acesso ao casamento civil] um direito fundamental de qualquer cidadão que apoio o seu referendo. Mas parece-me possível ir mais longe neste tema e tudo fazer para que se entranhe na sociedade o respeito pela orientação sexual, a sua tolerância e natural aceitação. Uma lei alheada do seu debate crítico em nada contribui para o progresso do país. Acredito que o grande mérito do referendo à ivg não foi tanto a revogação da antiga lei mas sim a interiorização pela sociedade deste direito fundamental da mulher.


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