Noites no ralo

Maio 26, 2009

Ainda os espíritos cheios de espirituosas não estavam contidos no recinto revestido de restos dos dias antecedentes, dos anos anteriores, o solo emana memória de cheiros persistentes, que quando regados de novo por copos de cerveja arremessados por volumes de massa alcoolizada em aceleração de antecipação de luta, reemergem, despertados pela agitação que os produziu há anos; já tinha visto bambolearem pilas fora de calças na berma de estradas em que circulam autocarros chiantes demasiado próximos do asfalto sob o peso das gentes que se quer embebedar, estuporar, alguns nem o sabem, mas já se roçam no veículo, no metal, nos varões canções cantadas por garrafas de tinto, já muito habituadas a esta farra as que sobrevivem intactas, as outras são garrafas novas se colocadas no vidrão, e um aglutinado a altas temperaturas de muitas bebedeiras de todos os tempos e espaços; já nos tinham gritado de janelas a passar a velocidades que os olhos já não eram capazes de seguir, arrastam-se em órbitas marejadas de vodca, olhos em areias movediças, e as pálpebras acabam sempre por desabar. À entrada um cone de sofreguidão, no vértice a lei, uns iguais aos que povoam o cone, com uma roupa diferente uma carranca diferente, a mesma massa de pendor para a perdição, para a mais primária inconsciência, indiferenciados da natureza sem saberem de si como algo seu, e mais pilas de fora ostentadas, enquanto pela sarjeta pejada de copos repousam corpos que pelas piores razões chegaram às melhores conclusões: o álcool que poderiam regar o espírito a ponto de ignição espontânea não lhes traria maior benefício que o descanso no alcatrão peganhento e o amparo de um lancil de cimento.

Lá dentro não sobra espaço para a volúpia, para um desvario, para planos circulares de desorientação, pois tudo é fila, massa corpo, álcool contido em peles retesadas roçagantes. Por trás de uma barraca encontra-se algum sossego, um múrmurio de idílico regato de mijo étilico, que paz neste jardim. Muito para lá do nosso entendimento presente meneiam-se corpos nus em barracas de madeira que mãos únicas desocupadas registam para posterior difusão em artefactos do século XXI tecnológico: ligam a luz e uma unha arranjada como uma emenda a um soneto, aponta o caminho para uma cona  desgraçada ilegal e sem papéis, e o magote uno assobia e recrudesce o som medieval dos espíritos em contra-auto-auto-de-fé, conspurcam-se a si mesmos na vez de se purificarem, consomem-se sós, como aqueles que deixam a cama intacta, uma fina fímbria do lençol enegrecido e se evolam, e o dedo move-se em círculos e move os olhos em círculos e as vontades erguem-se em espiral concêntrica sem qualquer loucura, sem essa sombra de palmeira aprazível, tudo é terra queimada sem memória sem remorso sem culpa, numa arena de distorção debitada, um grito em cada garganta de vodca, gargalo de inanidade, e visões de antigos amigos, muito antigos, muito amigos, errando de gatas em busca de um buraco, não me quero esconder, porquê neste circo contidos por grades esconder-me?, só quero vomitar. explode o mínimo componente incapaz de continuar a competição decibélica, e a turba é lenha o gerador é fogo e a noite é fumo.

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4 Responses to “Noites no ralo”

  1. daniela Says:

    isto quase parece a descrição de uma coisa, mas pode ser outra. estou em dúvida :p

  2. pedro leitao Says:

    Muito bom. Esqueceste-te de mencionar esse farol de lucidez que foi o meu pouso durante esses dias e do qual sou relembrado de 15 em 15 minutos quando almoço no bar da faculdade.

  3. pmramires Says:

    li isto há duas noites, mas de manhã está ainda melhor.

  4. Belmiro Oliveira Says:

    Daniela, não tenho ideia de qual possa ser essa segunda interpretação (ou talvez mesmo a primeira, para ti), mas estou curioso.


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