JBC

Maio 21, 2009

“…E diga o que eu disser sobre ‘Os Amantes Crucificados’, não tenho qualquer pejo em vos jurar que o suicídio de Anjû é a coisa mais bela que Mizoguchi alguma vez fez, o exemplo supremo da sua arte modulatória. Num outro texto sobre este filme, comparei-o à única visão comparável: A Apresentação de Maria no Templo, o quadro de Tiziano, que está na Academia de Veneza. Se nunca um pintor conseguiu criar uma luz tão irreal como a luz que nimba a jovem Virgem, no limiar do último lance de escadas do Templo, nunca um cineasta conseguiu luz idêntica à de Mizoguchi, quando nos mostra Anjû a descer para o lago, no campo de flores. E, pela última vez, ouve-se a canção da mãe (no final, a canção regressa mas a boca de Tamaki não se mexe) e ouve-se o “Zushío”, o “Anjû”. Se tudo é genial, três breves momentos já vão para além até desse adjectivo. E é aquela quase imperceptível panorâmica para a esquerda, que simultâneamente reenquadra o lago e oculta o movimento de Anjû para encher os bolsos com as pedras que mais depressa a levarão ao fundo. E é o corte no plano, reenviando-nos ao campo de concentração e à oração da velha, figuração substitutiva da oração dela, no momento em que tão lentamente avança pela água dentro. E é por fim, a luz, a luz que inunda o lago onde ela já sumiu, com a água movendo-se em círculos, rapidíssimos os primeiros, lentíssimos os últimos. E a única sombra é a sombra de uma árvore, é a luz do crepúsculo. Muito mais tarde, voltamos a ver o lago, quando Zushío visita a campa da irmã. Mas não é o mesmo lago, ou seja, sendo o mesmo tamanha luz nunca mais está nele.

Nunca assim se ligaram (se acordaram) o espaço virtual e o espaço real, o espaço simbólico e o espaço significativo. Ao contrário dos cineastas para quem o trágico, como essência da história, plana sobre a realidade física, Mizoguchi desvela a tragédia, não em essências, mas na beleza do mundo, beleza constante de paisagem, coisas e pessoas. Não busca a transcendência da ideia mas a imanência do real. E entre os factos representados e os meios cinematográficos de que se serve para os representar, qualquer separação (ou sucessão) é de impossível estabelecimento, como se luz, tempo, fixidez ou movimento de câmara fossem o próprio cerne do representado. Se eu fosse obrigado a escolher um exemplo – só um – do que o cinema é, escolheria esses cinco planos e esses únicos minutos de cinema para o tentar demonstrar“.

João Bénard da Costa in “As Folhas da Cinemateca – Kenji Mizoguchi” (adaptado)

* Momentos houve em que, por esta causa, me opus frontalmente ao trabalho de Bénard da Costa na Cinemateca, mais por razões políticas que culturais. No entanto, não posso deixar de me ajoelhar perante a sua herança e a sua figura. Recordo em cima um texto seu que me marcou particularmente e conjuntamente com o grande filme a que se refere. E, como em muitas outras “folhas”, é pela sua palavra que relembro tantas e memoráveis imagens de bons tempos passados frente ao ecrã.

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4 Responses to “JBC”

  1. Tomás Says:

    n faças isso leitão!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    é só um test de estatistica…
    pralém disso o rio douro n tem tanto glamour como o desse video…provavelmente enquanto te afundavas engolias um , nas palavras D’O Sousa, objecto flutuante em forma de alheira

  2. pedro leitao Says:

    Acho que afinal não será preciso chegar a esse ponto. Vou antes chapinar na banheira – essa sim, com muito mais glamour!

  3. Tomás Says:

    só tem glamour se tiveres um patinho de borracha no minimo e fingires q um tubarão o vai comer( o qe?! vais dizer q nnc fizest isso…)

  4. Belmiro Oliveira Says:

    Este excerto vem confirmar o pouco que conheço do Sr. Bénard (cujo nome é tão mal tratado como o do Sr. Berardo, há ali uma hesitação quando depois do “é” não vem um “r”): o entusiasmo dele dá vontade de ver o filme, para dele poder partilhar. Já vou começar hoje a conhecer mais, muito obrigado.


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