Se os The National não fossem bons, esta merda não tinha piada nenhuma.

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D.

Maio 30, 2009

Ela percebeu instinstivamente: ele seria amável como o escuteiro da escola Ivy League que sabe que jamais deixará de ser um escuteiro enquanto viver. Mas que sente, no entanto, que lhe falta qualquer coisa e por isso se encosta a grupos como a companha Decadente. Se for para gestão, escreve. Se for um engenheiro ou arquitecto, pinta ou faz escultura. Há-de manter-se hesitante, sobre a corda bamba, consciente até ao ponto de saber que agarra o pior de dois mundos, mas nunca deixando de se perguntar por que é que há-de haver uma corda bamba ou ainda se ela existe, de facto. Aprenderá como ser um homem dividido, e continuará esse jogo, lutando até partir a corda e então será destruído.

Troquem um detalhe ou outro. Pynchon reduziu-me a uma banalidade num parágrafo.

*Descobri uma edição portuguesa de V. numa banca de livros numa feira de antiguidades, no que pensava ser um acaso. Segundo o meu exemplar, esta tradução é de 1989. Depois de ler as primeiras 70 páginas surgiram-me as ideias de que talvez V. tenha sido traduzido só para mim, sem que mais ninguém alguma vez tenha tido acesso a ele; de que V. esteja a ser escrito por mim num livro de páginas brancas que comprei por 5€ pensando que continha V.; de que Pynchon esteja numa localização que aparece distorcida no Google Earth, upstate New York, a bater cada carácter de V. no momento em que eu lhe pouso os olhos. A segunda é falsa, porque eu não conseguiria escrever V..

Feira do Livro

Maio 29, 2009

Recebi por mail o programa cultural da Feira do Livro do Porto. Achei por bem publicá-lo aqui.

sáb, 30 Maio, 17h
NO MEIO, O(S) LIVRO(S)
Manuel Jorge Marmelo, valter hugo mãe

dom, 31 Maio, 17h30
XUTOS: 3 DÉCADAS A ROCK&ROLLAR
com Zé Pedro, Ana Cristina Ferrão, Rui Santos (aka Xaruto)

qua, 3 Junho, 18h30
PORTUGAL: PASSADO, PRESENTE, FUTURO
D. Manuel Clemente, Guilherme de Oliveira Martins

sex, 5 Junho, 21h30
QUANDO FERNANDO PESSOA VEIO AO PORTO E COMEU TRIPAS
Mário Cláudio

sáb, 6 Junho, 17h30
LUISA DACOSTA EM DESTAQUE
Paula Morão, José António Gomes, Cristina Valadas, Luísa Dacosta
(“Ler e reler Luísa Dacosta”, pelos alunos da Escola EB 2/3 Francisco
Torrinha)

sáb, 6 Junho, 21h30
AQUELE QUE ESCREVE É TAMBÉM ETERNAMENTE ESCRITO
João Luís Barreto Guimarães, Manuel António Pina
(inclui a apresentação do livro de A Parte pelo Todo, de João Luís
Barreto Guimarães)

dom, 7 Junho, 16h
A(S) CIDADE(S). NARRATIVA E BIOLOGIA
Richard Zimler, Alexandre Quintanilha

seg, 8 Junho, 18h30
200 ANOS DE INVASÕES FRANCESAS
Vasco Graça Moura, Luís Valente de Oliveira

ter, 9 Junho, 21h30
NO MEIO, O(S) LIVRO(S)
A. M. Pires Cabral, Rui Lage

qua, 10 Junho, 18h30
LITERATURA PORTÁTIL: A NOVA MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA
Rui Manuel Amaral, Rui Costa, José Mário Silva
moderação Henrique Manuel Bento Fialho

qui, 11 Junho, 17h30
NO MEIO, O(S) LIVRO(S)
Maria Velho da Costa, Armando Silva Carvalho

sex, 12 Junho, 21h30
NO MEIO, O(S) LIVRO(S)
Gonçalo M. Tavares, Pedro Eiras

sáb, 13 Junho, 17h30
ROMANCE HISTÓRICO: ENTRE A VERDADE E A FICÇÃO
Maria de Fátima Marinho, Miguel Real, João Aguiar

sáb, 13 Junho, 21h30
RETRATOS E AUTO-RETRATO DE AGUSTINA
de O Chapéu das Fitas a Voar (escritos autobiográficos)
a Longos Dias Têm Cem Anos (narrativa biográfica)
Mónica Baldaque, Luís Abel Ferreira, Manuel Vieira da Cruz

dom, 14 Junho, 17h
NO MEIO, O(S) LIVRO(S)
Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia, Carlos Vaz Marques

Oba, oba! O Governo Sombra em directo dos Aliados! Não? Ah pois, falta o João Miguel Tavares. Oga bolas!

Novas Provas

Maio 28, 2009

Só a net pode oferecer um  sucedâneo de uma infância num subúrbio judeu de New Jersey passada a ouvir velhas anedotas sobre advogados, médicos e proprietários de pequenas mercearias, trocadilhos sexuais e jogos verbais que só perceberíamos muito depois do bar mitzvah, e ofensas a italianos.

[blip.tv ?posts_id=1721728&dest=-1]

Adenda: A senhora aqui acima adquiriu, pelo menos no meu browser, dimensões alarmantes que derivam unicamente da minha estrita incompetência informática. Eu sei que a visão de uma senhora heptagenária à escala 3:1 num site que se visita na infundada esperança de ler algo interessante e até talvez cómico pode produzir reacções perigosas para a saúde, mas não sei mesmo como a encolher.

Noites no ralo

Maio 26, 2009

Ainda os espíritos cheios de espirituosas não estavam contidos no recinto revestido de restos dos dias antecedentes, dos anos anteriores, o solo emana memória de cheiros persistentes, que quando regados de novo por copos de cerveja arremessados por volumes de massa alcoolizada em aceleração de antecipação de luta, reemergem, despertados pela agitação que os produziu há anos; já tinha visto bambolearem pilas fora de calças na berma de estradas em que circulam autocarros chiantes demasiado próximos do asfalto sob o peso das gentes que se quer embebedar, estuporar, alguns nem o sabem, mas já se roçam no veículo, no metal, nos varões canções cantadas por garrafas de tinto, já muito habituadas a esta farra as que sobrevivem intactas, as outras são garrafas novas se colocadas no vidrão, e um aglutinado a altas temperaturas de muitas bebedeiras de todos os tempos e espaços; já nos tinham gritado de janelas a passar a velocidades que os olhos já não eram capazes de seguir, arrastam-se em órbitas marejadas de vodca, olhos em areias movediças, e as pálpebras acabam sempre por desabar. À entrada um cone de sofreguidão, no vértice a lei, uns iguais aos que povoam o cone, com uma roupa diferente uma carranca diferente, a mesma massa de pendor para a perdição, para a mais primária inconsciência, indiferenciados da natureza sem saberem de si como algo seu, e mais pilas de fora ostentadas, enquanto pela sarjeta pejada de copos repousam corpos que pelas piores razões chegaram às melhores conclusões: o álcool que poderiam regar o espírito a ponto de ignição espontânea não lhes traria maior benefício que o descanso no alcatrão peganhento e o amparo de um lancil de cimento.

Lá dentro não sobra espaço para a volúpia, para um desvario, para planos circulares de desorientação, pois tudo é fila, massa corpo, álcool contido em peles retesadas roçagantes. Por trás de uma barraca encontra-se algum sossego, um múrmurio de idílico regato de mijo étilico, que paz neste jardim. Muito para lá do nosso entendimento presente meneiam-se corpos nus em barracas de madeira que mãos únicas desocupadas registam para posterior difusão em artefactos do século XXI tecnológico: ligam a luz e uma unha arranjada como uma emenda a um soneto, aponta o caminho para uma cona  desgraçada ilegal e sem papéis, e o magote uno assobia e recrudesce o som medieval dos espíritos em contra-auto-auto-de-fé, conspurcam-se a si mesmos na vez de se purificarem, consomem-se sós, como aqueles que deixam a cama intacta, uma fina fímbria do lençol enegrecido e se evolam, e o dedo move-se em círculos e move os olhos em círculos e as vontades erguem-se em espiral concêntrica sem qualquer loucura, sem essa sombra de palmeira aprazível, tudo é terra queimada sem memória sem remorso sem culpa, numa arena de distorção debitada, um grito em cada garganta de vodca, gargalo de inanidade, e visões de antigos amigos, muito antigos, muito amigos, errando de gatas em busca de um buraco, não me quero esconder, porquê neste circo contidos por grades esconder-me?, só quero vomitar. explode o mínimo componente incapaz de continuar a competição decibélica, e a turba é lenha o gerador é fogo e a noite é fumo.

Maio 24, 2009

JBC

Maio 21, 2009

“…E diga o que eu disser sobre ‘Os Amantes Crucificados’, não tenho qualquer pejo em vos jurar que o suicídio de Anjû é a coisa mais bela que Mizoguchi alguma vez fez, o exemplo supremo da sua arte modulatória. Num outro texto sobre este filme, comparei-o à única visão comparável: A Apresentação de Maria no Templo, o quadro de Tiziano, que está na Academia de Veneza. Se nunca um pintor conseguiu criar uma luz tão irreal como a luz que nimba a jovem Virgem, no limiar do último lance de escadas do Templo, nunca um cineasta conseguiu luz idêntica à de Mizoguchi, quando nos mostra Anjû a descer para o lago, no campo de flores. E, pela última vez, ouve-se a canção da mãe (no final, a canção regressa mas a boca de Tamaki não se mexe) e ouve-se o “Zushío”, o “Anjû”. Se tudo é genial, três breves momentos já vão para além até desse adjectivo. E é aquela quase imperceptível panorâmica para a esquerda, que simultâneamente reenquadra o lago e oculta o movimento de Anjû para encher os bolsos com as pedras que mais depressa a levarão ao fundo. E é o corte no plano, reenviando-nos ao campo de concentração e à oração da velha, figuração substitutiva da oração dela, no momento em que tão lentamente avança pela água dentro. E é por fim, a luz, a luz que inunda o lago onde ela já sumiu, com a água movendo-se em círculos, rapidíssimos os primeiros, lentíssimos os últimos. E a única sombra é a sombra de uma árvore, é a luz do crepúsculo. Muito mais tarde, voltamos a ver o lago, quando Zushío visita a campa da irmã. Mas não é o mesmo lago, ou seja, sendo o mesmo tamanha luz nunca mais está nele.

Nunca assim se ligaram (se acordaram) o espaço virtual e o espaço real, o espaço simbólico e o espaço significativo. Ao contrário dos cineastas para quem o trágico, como essência da história, plana sobre a realidade física, Mizoguchi desvela a tragédia, não em essências, mas na beleza do mundo, beleza constante de paisagem, coisas e pessoas. Não busca a transcendência da ideia mas a imanência do real. E entre os factos representados e os meios cinematográficos de que se serve para os representar, qualquer separação (ou sucessão) é de impossível estabelecimento, como se luz, tempo, fixidez ou movimento de câmara fossem o próprio cerne do representado. Se eu fosse obrigado a escolher um exemplo – só um – do que o cinema é, escolheria esses cinco planos e esses únicos minutos de cinema para o tentar demonstrar“.

João Bénard da Costa in “As Folhas da Cinemateca – Kenji Mizoguchi” (adaptado)

* Momentos houve em que, por esta causa, me opus frontalmente ao trabalho de Bénard da Costa na Cinemateca, mais por razões políticas que culturais. No entanto, não posso deixar de me ajoelhar perante a sua herança e a sua figura. Recordo em cima um texto seu que me marcou particularmente e conjuntamente com o grande filme a que se refere. E, como em muitas outras “folhas”, é pela sua palavra que relembro tantas e memoráveis imagens de bons tempos passados frente ao ecrã.