Queria escrever aqui uma coisa em que vos transmitiria a imagem da Odete Santos a ameaçar um homem de pancada na cama, incentivando-o a continuar a dar-lhe prazer, coisa que já a Rosa Luxemburgo fazia na Berlim de ’17, e nem pensar que algum alentejano deixava a Catarina Eufémia a meio, insatisfeita no feno, ceifava-lhes logo um bocado, dos importantes. Como a execução desse plano consumiria demasiado tempo deixo-vos só a citação (via Hoje Há Conquilhas):

A cineasta Raquel Freire concede hoje, ao semanário Sol, a mais hilariante entrevista que tenho lido na imprensa portuguesa de há muitos dias para cá. Fazendo um rasgado elogio dos “sistemas marxistas”, onde “havia mais piscinas” do que no capitalismo, a realizadora de Rasganço“O sexo na Alemanha comunista durava mais tempo e era melhor. As mulheres, como adoptavam as doutrinas feministas, achavam que também tinham que ter orgasmos, que não eram só os homens. Já as mulheres da Alemanha Ocidental faziam um bocado o papel de bonecas insufláveis, como as nossas mães e as nossas avós. Na Alemanha comunista usavam-se métodos contraceptivos e estava muito mais presente a ideia do sexo pelo prazer e não apenas com o objectivo da reprodução.” compara os dois modelos alternativos de sociedade, centrando-se com nostalgia na Alemanha da era do Muro de Belim. E parece ver vantagens óbvias no comunismo:

Certamente tão espantado como eu com esta torrencial associação entre sexo e ditadura comunista, o entrevistador, José Fialho Gouveia, pergunta-lhe: “O comunismo combate a ejaculação precoce?”

Raquel não se atrapalha: admite logo que sim. “Provavelmente, mesmo que os homens ejaculassem depressa eram obrigados a continuar a relação e a dar prazer às mulheres.” Lembrei-me então daquelas célebres fotos dos beijos na boca entre Brejnev e Honecker – dois símbolos do anacrónico mundo comunista – destinados a selar a “solidariedade internacionalista” sob a foice e o martelo.

Nada melhor, com efeito, para combater a ejaculação precoce…

Da única vez que li o Sol fiquei com uma opinião muito fraquinha do jornal, mas então ele ainda concorria com o Expresso e não com o Inimigo Público. A julgar por esta amostra tem-se apresentado num nível muito superior desde esta redefinição da estratégia.

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Der Mandarine

Março 26, 2009

Um dia na vida do neotérico cidadão Guilherme Silva

Acordo de manhã, e em busca de um pouco de informação e lazer sento-me ao computador enquanto me preparo para mais um árdua jornada de labor. Visito o meu mail na esperança que Jesus me tenha respondido à prece da noite volvida, e tenha finalmente arranjado maneira de me explicar como sintonizar os canais nas televisões cá de casa. De seguida visito o site da BBC em busca da excelência dos seus conteúdos. Minutos depois, mais satisfeito e em harmonia com o meu ser, desligo o computador e parto. Obrigado Big Breasted Chicks.

No autocarro, na tentativa de me abstrair de conversas enfadonhas e descoordenadas sento-me a ler “Eurico o presbítero” de Alexandre Herculano. Vinte minutos volvidos ainda miro a capa, sem conseguir pronunciar “presbítero”, tão pouco saber o seu significado. Chego à faculdade pouco mais tarde, mais esclarecido e realizado. “Deve ser um fruto.”, concluí.

Durante as aulas dou asas à minha essência, e divago sobre paixões e sonhos. Adoro cinema, salto em altura, música…Gosto especialmente das baladas do George Michael, e num exercício de auto-conservação vejo-me obrigado a gostar de papas de sarrabulho, de modo a garantir uma réstia que seja de virilidade no meu ser.

Adoraria também viajar, mas infelizmente não posso. Temo que em plena capital europeia, buscando um pouco de relax numa casa de má fama, dê de caras com a minha prima Cláudia, meia despida e enroscada a uma colher-de-pau. A crise toca a todos, e eu bem o sei.

Ao final da tarde, já em casa e de novo em frente ao computador, encomendo um toque real para o telemóvel num qualquer site manhoso publicitado na televisão em horários esquisitos. Duas horas mais tarde tocam-me à campainha e é-me apresentado o Borges, encarregue de me fazer um toque rectal. Publicidade enganosa ou simples falha de comunicação? Sinceramente não sei, mas não apreciei.

Já de madrugada e ainda no computador (“ahh, daí aquela barriga!”), entro no messenger para ter conversas que normalmente não me levam a lado algum. Muitas vezes, ao fim de escassos minutos, acabo reanimado pela minha mãe, depois de mais um ataque epiléptico provocado pelos berrantes emoticons. Pouco depois e agora a soro, volto a adormecer, ansiando pelo despertar de um novo dia.

Ain’t life a bitch?

in Tangerina

Faço menção a escritos deste blogue pelo menos uma vez por semana, a propósito da mais corriqueira e da mais solene ocasião. Bem haja Guilherme Silva e a sua vida singular passada em Aldoar, esse pedaço de terra que teimo em ver como a Toontown (Who framed Roger Rabbit?) do Porto, ou não fossem os seus habitantes base criativa de muitos cartoons. Anseio pelo dia em que me aceitem como vosso semelhante, Aldoarense de tripas e coração, já devidamente instalado no meu rés do chão da rua da Vilarinha, a minha filha a trabalhar esgachada contra um pinheiro, o meu filho a roubar telemóveis de 500€ a betos do Garcia, a minha mulher na cozinha a estufar um cisne furtivamente caçado no Parque da Cidade. Ah, que boa vida me espera.

Diz o Larkin à Paris

Março 24, 2009

O post do Ramires sobre o Larkin recordou-me da descoberta que fiz há uns anos: The Paris Review, e os seus arquivos online, incompletos, das míticas entrevistas a escritores. O post levou-me a reler a do Larkin e confirmei o sentido de humor impecável do poeta eremita.

My life is as simple as I can make it. Work all day, cook, eat, wash up, telephone, hack writing, drink, television in the evenings. I almost never go out. I suppose everyone tries to ignore the passing of time—some people by doing a lot, being in California one year and Japan the next. Or there’s my way—making every day and every year exactly the same. Probably neither works.

Who is Jorge Luis Borges?

Well, I think if you’re in good health, and have enough money, and nothing is bothering you in the foreseeable future, that’s as much as you can hope for. But “happiness,” in the sense of a continuous emotional orgasm, no. If only because you know that you are going to die, and the people you love are going to die.

Oh no, I’ve never been to America, nor to anywhere else, for that matter.

And of course I’m so deaf now that I shouldn’t dare. Someone would say, What about Ashbery? And I’d say, I’d prefer straw- berry—that kind of thing.

A writer once said to me, If you ever go to America, go either to the East Coast or the West Coast; the rest is a desert full of bigots. That’s what I think I’d like: where if you help a girl trim the Christmas tree you’re regarded as engaged; and her brothers start oiling their shotguns if you don’t call on the minister. A version of pastoral.

I remember saying once, I can’t understand these chaps who go round American universities explaining how they write poems; it’s like going round explaining how you sleep with your wife. Whoever I was talking to said, They’d do that too, if their agents could fix it.

You have to distinguish between things that seemed odd when they were new but are now quite familiar, such as Ibsen and Wagner, and things that seemed crazy when they were new and seem crazy now, like Finnegans Wake and Picasso.

Charlie Parker wrecked jazz by—or so they tell me—using the chromatic rather than the diatonic scale. The diatonic scale is what you use if you want to write a national anthem, or a love song, or a lullaby. The chromatic scale is what you use to give the effect of drinking a quinine martini and having an enema simultaneously.

Sheer genius. , em resposta a How did you arrive upon the image of a toad for work or labor?

My secret flaw is just not being very good, like everyone else.

The other stuff, the mad stuff, is more an aberration. referindo-se a Joyce e outros modernistas.

Há outras pérolas, ou safiras, rubis, não sei, coisas preciosas na entrevista.

Sobre o Rafeiro Indiano

Março 16, 2009

Li p’raí pixéis com fartura sobre o rafeiro da favela, uma floresta processada deve ter sido ocupada com os caracteres de encómio, com o vómito feito verbo, com a indiferença snob, e ninguém, nenhum destes tipos atentos, chama a atenção para o que realmente interessa: a rua das putas de Mumbai chama-se Pila Street, o que pode ter a ver com uns certos marmanjos que por lá andaram há séculos, e que depois de um oceano de seca bem precisavam de uma street inteira para a satisfazer. Claro que se o Ruca tivesse escrito sobre a película tinha anotado isto, é mesmo a zona dele. Que é como quem diz, a cona dele.

Gostava de deixar aqui também uma nota para os mais distraídos: não sei se repararam que na cena em que o irmão do protagonista deixa sair a moça bonita da casa do monhé mauzão, a verosimilhança saiu a correr atrás, e nunca mais foi vista até ao fim do filme.

Nova Aliança – Hip Hop Cristão http://na.bloguedemusica.com/

À Minha Amada (rap): Desejei te conhecer, e não esperei ser desejado! Pois já não me achava digno, de poder amar e ser amado! Desesperado na minha solidão, achei-me um fracasso no amor! Pois ainda vivia na ilusão, e estava sendo trabalhado pelo Senhor. Mas sempre que eu te via, sentia algo de misterioso por de trás do teu olhar! Era o amor que eu desconhecia, mas que estava ansioso por encontrar! Mas primeiro tive que reconhecer que nada era, e que nada merecia, e que nada poderia fazer, que me tornasse digno de te ter! Nunca pensei, que Deus nos pudesse juntar! Foram precisos sinais visíveis, para que eu começasse a acreditar! Perguntava-me se era da vontade de Deus, e se em ti também havia o mesmo desejo? Mas quando tive a certeza, não mais esperei, e aconteceu o nosso primeiro beijo! (…) Faltar-me-ia aqui tempo para falar das qualidades, que em ti descubro a cada dia! E das surpresas, e do amor, e dos momentos bons que já me proporcionaste de prazer e alegria! Mas sem dúvida, o motivo pelo qual mais te elogio, é porque temes ao Senhor, e andas na Sua presença!

Cortesia do Tomás, claro. Só ele para descobrir coisas destas na praia de Matosinhos.

Os livros sagrados

Março 12, 2009

Na quarta temporada de The Wire uma das principais personagens (e talvez a mais famosa, porque está sozinho, e ocasionalmente acompanhado, na intersecção de três minorias demográficas, não há mais pretos ladrões de droga maricas na televisão) é presa por um crime que não cometeu, o que foi, da parte da polícia, um feito formidável, estatisticamente falando: tendo em conta a quantidade de corpos que este Omar Little deixou pelas ruas de Baltimore, a probabilidade de um qualquer cadáver ser obra sua era grande. O que o levou à cadeia não foi.

Assim, Omar sabe logo que está a ser alvo de uma campanha negra, em mais do que um sentido. É contactado por dois aliados, dentro da prisão, que daí em diante se encarregam da sua segurança. Fornecem-lhe uma faca improvisada, guardam-lhe as costas. Quando Omar tem de sair pela primeira vez da sua cela, que ocupa sozinho, os guarda-costas aparecem com uma rima de calhamaços flexíveis, tipo lista telefónica, e fita-cola. Revestem-lhe o tronco de livros, criando um colete à prova de faca.

Quando Omar é atacado na fila do refeitório, um local com uma taxa de mortalidade superior à da Serra Leoa nos filmes passados em prisões (The Wire não é um filme, mas é melhor do que quase todos), os livros amparam os golpes do preto revestido a laranja, que os esfaqueia por duas vezes. Omar usa os livros para se proteger dos ataques dos inimigos, e estes salvam-lhe a vida.

Nota Mental

Março 12, 2009

Envergar umas calças cor de Borgonha na próxima aparição pública, por esta razão.