Meias

Janeiro 8, 2009

A sic (tenho a impressão que a opção foi tomada também por outros canais, mas como não vi não comento) decidiu hoje aplicar ao seu telejornal um modelo adaptado e invertido daqueles programas que têm tradução para linguagem gestual. O modelo foi adaptado para servir outra minoria, as pessoas que sofrem de perturbações mentais incapacitantes, e invertido porque neste caso a emissão destinada a servir os  menos favorecidos pela natureza não estava a ser feita num pequeno canto do ecrã, mas ocupava-o todo.

Parece que há tipos a morrer às dezenas por dia no médio oriente (para não falar da situação no Congo, nem na Somália, que essas coisas não constituem, logicamente, notícias), mas a notícia que abriu, desenvolveu, e concluiu o telejornal foi o frio. O frio. Há tipos na Rússia, não vou falar dos suecos nem desses gajos ricos que têm saunas em todas as casas, mas há tipos na Rússia que suam do cu com 0º e que com 5º positivos já se lhes colam os tomates às coxas.

Mas batesse o mercúrio lá no fundo do termómetro, de tal forma que o mijo dum gajo congelasse antes de atingir a sanita, o que provocaria estilhaços na louça, será que se justificaria ir para a porta do colégio francês perguntar às criancinhas se levam cuecas térmicas vestidas? Andaram lá bem perto.

A melhor frase da noite ficou no ecrã durante uns três minutos, não fosse alguém perdê-la: “Vista várias camadas de roupa em vez de uma só”. Ou uma merda parecida. Acho que teria sido melhor manter o conselho no canto superior direito do ecrã, como o resultado dos jogos de futebol, assim sabíamos qual a quantidade de roupa a vestir enquanto fazíamos zapping. Ainda bem que o Balsemão me faz chegar este tipo de informações a casa. Bem que me podiam ter dito quantos pares de meias devia calçar para dormir, resolviam-me o dilema: dois ou um? Receio que me respondessem três.

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Por falar em mamas

Janeiro 7, 2009

A propósito de um comentário do Tomás, entusiástico fã da nossa morada (aka mais um sociopata), sobre essa curiosa parte do corpo feminino, impõe-se que mostre ao mundo a obra desse embaixador das protuberâncias soberbas que é o grande Russ Meyer,  mestre do cinema erótico independente. “Amarcord” foi o começo; com “Lorna” atinges o nirvana (não com este vídeo, claro, que há famílias online; este não é para tocar, só para cheirar). E “Faster, Pussycat! Kill! Kill!” é simplesmente sublime.

Magnum Opus

Janeiro 7, 2009

Assumindo que ao epílogo nada se segue (recupero uma forma vaga do que sentia  quando, puto, me apercebia que as páginas da Ilha Misteriosa que segurava na mão direita, enquanto lia, começavam a rarear) e que a minimalista obra máxima está dada por terminada, deixo aqui duas notas breves.

Um sismógrafo antigo, daqueles clássicos, é alimentado por uma folha em que vão sendo registadas as perturbações por ele detectadas.
Ao seu sismógrafo, o Estado Civil, o Pedro Mexia foi fornecendo uma folha previamente marcada: um traço grosso dividia-a em parte superior e inferior, separava os altos e os baixos, e só estes é que nos eram dados a ler.
Claro que existem muitos posts que imediatamente provam a falsidade de  toda a treta acima. Muitas excepções, porque a toada desde o início estava determinada: elegíaca, em memória de uma parte de si.

Ou anda muita gente distraída ou então eu é que perdi alguma informação, porque ainda não vi, de entre todos os bloguers leitores do Pedro Mexia, nenhum chamar a atenção para o facto de o Estado Civil ter sido criado em 2005 e não 2006, como o Pedro Mexia nos quer fazer crer. Os posts, ou pelos menos parte deles, escritos entre a criação do blogue em 2005 e Outubro de 2006 ficaram coligidos no Prova de Vida, que não tenho à mão agora para confirmar o mês de nascimento do Estado Civil.

A omissão deste período pode não passar de uma distracção, pouco provável no mais profissional (como disse o Lourenço Cordeiro) dos blogues do Mexia. Ou então ser uma tentativa de imputar a um Alan Smithee blogosférico, e não cinematográfico, esses textos, o que faz pouco sentido, pois estão no livro, cuja capa não deixa margem para dúvidas acerca da identidade do autor. Mas a opção mais verosímil é a de que esses posts não formavam com os que se lhes seguiram uma unidade temática e metodológica, não eram linhas rectas que ligavam picos e vales, como numa folha de um sismógrafo velho, cuja mancha gráfica lembra a de um electrocardiograma.

A quem, pelo Estado Civil, não nutre um interesse a raiar o patológico ofereço as minhas desculpas pela maçada. O post ainda foi grande e devem ter ficado até ao fim à espera de alguma coisa divertida.

O que a criação destrói

Janeiro 5, 2009

A vitalidade da nossa economia e a melhoria continuada do nosso nível de vida exigem uma constante renovação, dependem de “uma permanente rajada de destruição criativa”, que, dando vida a novos produtos, novas indústrias, novos mercados, na sua voragem traga o passado.

É cada vez mais difícil comprar uma televisão de tubo de raios catódicos, aqueles velhos caixotes pretos (assumindo que já não estão comercialmente disponíveis aquelas televisões revestidas com um material que imitava a madeira e que também ornava determinados modelos de station wagon americanos). O modelo standard de televisão desta época é uma esguia laje negra, que não ocupa mais do que vinte centímetros de profundidade do armário da sala de lá de casa, e até pode ser pendurada na parede. Esse é um resultado esperado da constante inovação tecnológica e do empreendedorismo dos agentes privados, que pelas suas decisões individuais visando o seu próprio interesse, nos fazem chegar modelos gradualmente mais avançados de batedeiras e frigoríficos de capacidade progressivamente inferior, creio que estacionamos por agora nas quatro latas de refrigerante.

Mas este imparável curso do capitalismo tem efeitos mais perversos e imprevisíveis. As televisões são cada vez mais práticas, com o seu dietético perfil, mas perdeu na casa portuguesa o lugar que sempre teve um insubstituível adereço: não é possível equilibrar, em nenhum televisor comprado em 2009, um bibelô que a nossa avó não gosta muito mas que a vizinha lhe trouxe de Fátima, quando lá foi em excursão, e que descansa sobre um naperon em croché da sua própria lavra.

Lá no Norte

Janeiro 5, 2009

Nunca vivi em nenhum país muito desenvolvido (nem noutro que não Portugal) mas pelos relatos, de chegados e afastados, que leio e ouço parecem o local ideal para a solidão depressiva: jantar fora é uma extravagância, o álcool bebido em casa e fora dela difere cinco vezes no preço e nenhuma na graduação, os nativos estão adapatados ao clima e batem os seus termómetros numa competição de frigidez, há take away do sudeste asiático extremamente em conta, a lista de canais disponíveis permite que uma noite de zapping se passe antes de se começar a quarta volta à dita lista, e os livros em segunda mão são muito baratos.

Aviso

Janeiro 5, 2009

O post imediatamente abaixo foi suscitado pelo post anterior a esse, numa sequência não premeditada por nenhum dos escrevinhadores.

A linha mesmo no final do post é a concretização de mais uma imitação: a dedicatória cifrada a uma maiúscula feminina. Que neste caso tem muito pouco de hermético.

A experiência de ouvir uma música acompanhada por imagens, como qualquer trecho incluído na banda sonora de um filme, é certamente diferente daquela mais banal audição* acompanhada de imagens do mundo real (habitualmente não fechamos os olhos) e que não foram criadas como acompanhamento visual daquela. Isto é particularmente verdade se a música desempenhar no filme um papel importante: se for catalizadora de algum acontecimento, se for essencial a uma cena particularmente contemplativa, sem diálogos, ou se for interpretada por uma das personagens.

Estas músicas e as imagens que passam no ecrã ficam irremediavelmente associadas na nossa memória, nela são vertidas como dois metais fundentes e são para sempre uma liga inseparável.**

É por isso que, à noite, num quarto escuro, depois de adormecer sozinho durante os oito minutos de silêncio que sucedem a Just Like Honey e precedem o karaoke escondido, posso ver Bob Harris surgir de microfone na mão no recreio da minha escola primária, enquanto eu, especado, me interrogo sobre o que faz o Bill Murray num daqueles sonhos em que fui sem calças e em pantufas para a escola. Uma miúda, de peruca rosa e voz rouca, balança-se nas grades que ladeiam o campo de futebol, no canto do meu olho direito.

*Mas não menos valiosa ou intensa, pois poucas coisas são capazes de induzir em quem as experimenta, e de forma tão imediata, um estado diferente daquele em que se encontrava anteriormente.

**O efeito de associação é obviamente possível com acontecimentos da vida real: há toda uma tradição, entre casais, de nossas músicas e singles ao som dos quais um slow é sempre obrigatório; e nos solteiros, de lágrimas a acompanhar idos hits dos Smiths. Mas não interessa para o caso, e ademais, é esteticamente duvidoso.

para a G.