Shakira Kurosawa

Austrália: Nos Antípodas do Bom Cinema

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Cá vai mais um exemplo do extremar de posições de que o Ramires falou. Leitão, apanha lá com o rocket. Fico à espera dos tanques.

Antes de mais, dizer que Austrália é um Gone With The Wind moderno é extremamente mentiroso.
Homenagem (acompanhada de uma certa babagem) aos clássicos de Hollywood dos anos 30 e 40, é certo que é. E boas referências traz, sem dúvida: The Wizard of Oz, o já citado da Scarlett, o western clássico, qualquer coisita de filme de guerra, uma conferência internacional, intergeracional do cliché, mas com convidados aborígenes.
Não falando pelo Cukor ou pelo McCarey, Austrália é um filme que eu não faria, até porque acho que o importante é contar uma história (duas também pode funcionar, já se experimentou e sabe-se que funciona, mais do que isso pode dar “um monte de sarilhos”). E bem: vá, com princípio meio e fim, pelo meio um clímax, dois se quisermos uma coisa bem animada, 27 se formos o histérico do Baz Luhrmann. Zany, acho que é o que lhe chamam n’América. E se calhar na Austrália.
27 clímaxes até é coisa para cair bem a um espectador: entre cada um deles demos-lhe tempo de recuperar o fôlego, uma narrativa coerente que lhe prenda o interesse, e razões para se voltar a emocionar com os protagonistas e a nova aventura em que se foram meter. Mas isso era coisa para dar trabalho e para resultar num filme um bocado longo:
– Ó Baz, isto assim não vai dar, pá. Ninguém quer ver um filme de 8 horas passados nos antípodas, se ainda fosse a adaptação de um romance da Agustina por aquele senhor centenário, olha que ele é muito simpático, e velhinho, e as pessoas gostam mesmo dele.
– Então deixamos só as cenas mais emocionantes, já dá menos de 3 horas.
– Olha que isso talvez não faça muito sentido, é capaz de prejudicar o ritmo do filme. O público pode ficar confuso.
– Não fica nada. Pomos uma história na primeira metade do filme, e damos-lhe aquele toquezinho histriónico. Depois daí para a frente é sempre a abrir. E somos muito claros. Violinos, violoncelos, toda a tralha que tenha cordas e dê para tocar de forma plangentemente emocionante: espetamos com um bocadinho disso e toda a gente já sabe que é para chorar.

O Austrália é uma gaja que depois do primeiro clímax só dá vontade é de dormir. Se ele acontecesse lá para os últimos 20% da duração do filme não havia problema. Mas ninguém é obrigado a ficar acordado até às 3 da manhã.

Esta espécie de análise consistiu também num exercício de integração de propriedades formais e tonais da obra em causa (histriónico, tentativa de estilo, pouca substância, bonitas imagens de embondeiros) numa opinião extremada ao ponto de quase não a reconhecer.

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