O que a criação destrói

Janeiro 5, 2009

A vitalidade da nossa economia e a melhoria continuada do nosso nível de vida exigem uma constante renovação, dependem de “uma permanente rajada de destruição criativa”, que, dando vida a novos produtos, novas indústrias, novos mercados, na sua voragem traga o passado.

É cada vez mais difícil comprar uma televisão de tubo de raios catódicos, aqueles velhos caixotes pretos (assumindo que já não estão comercialmente disponíveis aquelas televisões revestidas com um material que imitava a madeira e que também ornava determinados modelos de station wagon americanos). O modelo standard de televisão desta época é uma esguia laje negra, que não ocupa mais do que vinte centímetros de profundidade do armário da sala de lá de casa, e até pode ser pendurada na parede. Esse é um resultado esperado da constante inovação tecnológica e do empreendedorismo dos agentes privados, que pelas suas decisões individuais visando o seu próprio interesse, nos fazem chegar modelos gradualmente mais avançados de batedeiras e frigoríficos de capacidade progressivamente inferior, creio que estacionamos por agora nas quatro latas de refrigerante.

Mas este imparável curso do capitalismo tem efeitos mais perversos e imprevisíveis. As televisões são cada vez mais práticas, com o seu dietético perfil, mas perdeu na casa portuguesa o lugar que sempre teve um insubstituível adereço: não é possível equilibrar, em nenhum televisor comprado em 2009, um bibelô que a nossa avó não gosta muito mas que a vizinha lhe trouxe de Fátima, quando lá foi em excursão, e que descansa sobre um naperon em croché da sua própria lavra.

Anúncios

2 Responses to “O que a criação destrói”

  1. Tomás Says:

    sinto-me profundamente insultado que não tenhas mencionado nem o facto do LSD estar cada vez mais acessível e barato nem a nossa produtiva/criativa ideia da dildoteca. Ideia essa que não só é o nosso bilhete de saída daquela misera faculdade como iria revitalizar, por assim dizer , toda a economia e todo O Portugal (adoro esta expressão).
    Como não poderia deixar de ser despeço-me agora com uma citação que embora simples,dá que pensar…
    “as Erasmus são fáceis”

  2. pedro leitao Says:

    As vossas “criações” destroem o estudo dos outros. Ah esperem, a culpa é da Catarina, claro…


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: