I wish you way more than luck

Fevereiro 2, 2011

Agora que já estamos todos cá fora, alguém tinha de vir cá fechar a porta.

Para isso vou recorrer a recortes velhos.

Da crónica do Pedro Lomba, na última página do Público de 10 de Junho de 2010, amarrotada numa mochila desde então:

“(…) quero falar da exacta frustração que sempre senti num país que praticamente não celebra nada, que, pior, parece alimentar uma raiva envergonhada contra a dimensão comemorativa que deve existir na vida pública.”

Até aqui, isto não me dizia muito. Uma postura um bocado blasé, desvalorizadora, desinteressada, parece-me muitas vezes a ideal perante os “eventos”, as efemérides.

“Pergunto sempre: em quantas escolas, do secundário à universidade, se celebra dignamente o início e o fim do ano lectivo, a atribuição dos diplomas e prémios, a entrada e a saída dos estudantes? Gerações de alunos passaram anos pelas universidades sem nunca terem sentido que fizeram parte de alguma coisa. Receberam passivamente um serviço, como se fossem ao hospital. Não admira que a maioria esqueça depressa que lá andou.”

E como isto é biograficamente verdade (excepto num certo sentido perverso), e, por volta de 10 de Junho, eu estava a passar precisamente por essa altura em que a faculdade, sem qualquer sinal, sem qualquer aviso, sem uma carta que seja, termina, desaparece, se esfuma ainda que continue na rua Dr. Roberto Frias, tive de concordar com Pedro Lomba, mesmo que ao princípio isto me parecesse conversa ideológica.

Um pouco antes da última citação aparece: “Nenhum Estado pode dispensar essa retórica, pela simples razão de que nada tem depois capaz de a preencher.” Caso em que Pedro Lomba acerta, mas sem uma ressalva que me parece mais ou menos importante. Pegando no exemplo da inexistência de uma retórica pública nas universidades: quando o Estado não pratica essa retórica pública, esse espaço é integralmente ocupado por seres de batina, e a praxe preenche o vazio simbólico (tenho a certeza que existe alguma palavra melhor para isto) deixado pelo Estado, e muitos estudantes, alguns das quais não-acéfalos, abraçam-na porque não lhes é apresentada qualquer alternativa de pertença. Em muitas faculdades, quem não adere à praxe não se limita a preferir um individualismo à pertença a um grupo de práticas primitivas, passa automaticamente a pertencer ao campo oposto, quase a uma Resistência, mas sem direcção nem reuniões em caves esconsas.  Ao longo dos anos, muitos vão encontrando outros espaços a que podem pertencer e comunidades em que se integrar, e a praxe perda a força da retórica oficial e torna-se um fenómeno mais ou menos marginal. Mas pelo menos no primeiro ano, a praxe tem toda a força da retórica oficial, pública, estabelecida, porque a Universidade se escusa de a produzir e deixa o campo aberto a uma tradição abjecta que propaga a ignorância, a submissão indiscriminada, e um autoritarismo que deve fazer parte do currículo de qualquer cacique local. Jardim deve ter sido um admirável doutor.

E é por isso que,

agora é que vem a parte que interessa, até agora isto não passou de uma disconexa divagação,

isto que aqui vou reproduzir em violação dos direitos de um homem morto e dos seus herdeiros legais vivos, nunca aconteceu nem há-de tão cedo acontecer em Portugal, onde nós temos o privilégio de habitar há anos. Em 2005, o Kenyon College convidou David Foster Wallace, um senhor pavorosamente inteligente do qual nunca li mais do que pequenos artigos, para fazer o Commencement Address desse ano, que é uma tradição americana que eu conheço porque vejo filmes americanos piegas: aparece no fim dos filmes de ambiente universitário, quando um senhor faz um discurso de motivação na margem do lacrimal, e chapéus dos estudantes são lançados ao ar em câmara lenta, e mesmo antes de começarem a descida, congelam lá no topo,

por isso, tenham paciência, leiam até ao fim. Vou incluir uma foto do senhor para tentar convencer os mais renitentes, provavelmente violando os direitos de mais alguém.

Texto alternativo, p.ex. “A Mona Lisa”

Foster Wallace – Transcription of the 2005 Kenyon Commencement Address – May 21, 2005

(If anybody feels like perspiring [cough], I’d advise you to go ahead, because I’m sure going to. In fact I’m gonna [mumbles while pulling up his gown and taking out a handkerchief from his pocket].) Greetings [“parents”?] and congratulations to Kenyon’s graduating class of 2005. There are these two young fish swimming along and they happen to meet an older fish swimming the other way, who nods at them and says “Morning, boys. How’s the water?” And the two young fish swim on for a bit, and then eventually one of them looks over at the other and goes “What the hell is water?”
This is a standard requirement of US commencement speeches, the deployment of didactic little parable-ish stories. The story [“thing”] turns out to be one of the better, less bullshitty conventions of the genre, but if you’re worried that I plan to present myself here as the wise, older fish explaining what water is to you younger fish, please don’t be. I am not the wise old fish. The point of the fish story is merely that the most obvious, important realities are often the ones that are hardest to see and talk about. Stated as an English sentence, of course, this is just a banal platitude, but the fact is that in the day to day trenches of adult existence, banal platitudes can have a life or death importance, or so I wish to suggest to you on this dry and lovely morning.
Of course the main requirement of speeches like this is that I’m supposed to talk about your liberal arts education’s meaning, to try to explain why the degree you are about to receive has actual human value instead of just a material payoff. So let’s talk about the single most pervasive cliché in the commencement speech genre, which is that a liberal arts education is not so much about filling you up with knowledge as it is about quote teaching you how to think. If you’re like me as a student, you’ve never liked hearing this, and you tend to feel a bit insulted by the claim that you needed anybody to teach you how to think, since the fact that you even got admitted to a college this good seems like proof that you already know how to think. But I’m going to posit to you that the liberal arts cliché turns out not to be insulting at all, because the really significant education in thinking that we’re supposed to get in a place like this isn’t really about the capacity to think, but rather about the choice of what to think about. If your total freedom of choice regarding what to think about seems too obvious to waste time discussing, I’d ask you to think about fish and water, and to bracket for just a few minutes your skepticism about the value of the totally obvious.
Here’s another didactic little story. There are these two guys sitting together in a bar in the remote Alaskan wilderness. One of the guys is religious, the other is an atheist, and the two are arguing about the existence of God with that special intensity that comes after about the fourth beer. And the atheist says: “Look, it’s not like I don’t have actual reasons for not believing in God. It’s not like I haven’t ever experimented with the whole God and prayer thing. Just last month I got caught away from the camp in that terrible blizzard, and I was totally lost and I couldn’t see a thing, and it was fifty below, and so I tried it: I fell to my knees in the snow and cried out ‘Oh, God, if there is a God, I’m lost in this blizzard, and I’m gonna die if you don’t help me.'” And now, in the bar, the religious guy looks at the atheist all puzzled. “Well then you must believe now,” he says, “After all, here you are, alive.” The atheist just rolls his eyes. “No, man, all that was was a couple Eskimos happened to come wandering by and showed me the way back to camp.”
It’s easy to run this story through kind of a standard liberal arts analysis: the exact same experience can mean two totally different things to two different people, given those people’s two different belief templates and two different ways of constructing meaning from experience. Because we prize tolerance and diversity of belief, nowhere in our liberal arts analysis do we want to claim that one guy’s interpretation is true and the other guy’s is false or bad. Which is fine, except we also never end up talking about just where these individual templates and beliefs come from. Meaning, where they come from INSIDE the two guys. As if a person’s most basic orientation toward the world, and the meaning of his experience were somehow just hard-wired, like height or shoe-size; or automatically absorbed from the culture, like language. As if how we construct meaning were not actually a matter of personal, intentional choice. Plus, there’s the whole matter of arrogance. The nonreligious guy is so totally certain in his dismissal of the possibility that the passing Eskimos had anything to do with his prayer for help. True, there are plenty of religious people who seem arrogant and certain of their own interpretations, too. They’re probably even more repulsive than atheists, at least to most of us. But religious dogmatists’ problem is exactly the same as the story’s unbeliever: blind certainty, a close-mindedness that amounts to an imprisonment so total that the prisoner doesn’t even know he’s locked up.
The point here is that I think this is one part of what teaching me how to think is really supposed to mean. To be just a little less arrogant. To have just a little critical awareness about myself and my certainties. Because a huge percentage of the stuff that I tend to be automatically certain of is, it turns out, totally wrong and deluded. I have learned this the hard way, as I predict you graduates will, too.
Here is just one example of the total wrongness of something I tend to be automatically sure of: everything in my own immediate experience supports my deep belief that I am the absolute center of the universe; the realist, most vivid and important person in existence. We rarely think about this sort of natural, basic self-centeredness because it’s so socially repulsive. But it’s pretty much the same for all of us. It is our default setting, hard-wired into our boards at birth. Think about it: there is no experience you have had that you are not the absolute center of. The world as you experience it is there in front of YOU or behind YOU, to the left or right of YOU, on YOUR TV or YOUR monitor. And so on. Other people’s thoughts and feelings have to be communicated to you somehow, but your own are so immediate, urgent, real.
Please don’t worry that I’m getting ready to lecture you about compassion or other-directedness or all the so-called virtues. This is not a matter of virtue. It’s a matter of my choosing to do the work of somehow altering or getting free of my natural, hard-wired default setting which is to be deeply and literally self-centered and to see and interpret everything through this lens of self. People who can adjust their natural default setting this way are often described as being “well-adjusted”, which I suggest to you is not an accidental term.
Given the triumphant academic setting here, an obvious question is how much of this work of adjusting our default setting involves actual knowledge or intellect. This question gets very tricky. Probably the most dangerous thing about an academic education — least in my own case — is that it enables my tendency to over-intellectualize stuff, to get lost in abstract argument inside my head, instead of simply paying attention to what is going on right in front of me, paying attention to what is going on inside me.
As I’m sure you guys know by now, it is extremely difficult to stay alert and attentive, instead of getting hypnotized by the constant monologue inside your own head (may be happening right now). Twenty years after my own graduation, I have come gradually to understand that the liberal arts cliché about teaching you how to think is actually shorthand for a much deeper, more serious idea: learning how to think really means learning how to exercise some control over how and what you think. It means being conscious and aware enough to choose what you pay attention to and to choose how you construct meaning from experience. Because if you cannot exercise this kind of choice in adult life, you will be totally hosed. Think of the old cliché about quote the mind being an excellent servant but a terrible master.
This, like many clichés, so lame and unexciting on the surface, actually expresses a great and terrible truth. It is not the least bit coincidental that adults who commit suicide with firearms almost always shoot themselves in: the head. They shoot the terrible master. And the truth is that most of these suicides are actually dead long before they pull the trigger.
And I submit that this is what the real, no bullshit value of your liberal arts education is supposed to be about: how to keep from going through your comfortable, prosperous, respectable adult life dead, unconscious, a slave to your head and to your natural default setting of being uniquely, completely, imperially alone day in and day out. That may sound like hyperbole, or abstract nonsense. Let’s get concrete. The plain fact is that you graduating seniors do not yet have any clue what “day in day out” really means. There happen to be whole, large parts of adult American life that nobody talks about in commencement speeches. One such part involves boredom, routine, and petty frustration. The parents and older folks here will know all too well what I’m talking about.
By way of example, let’s say it’s an average adult day, and you get up in the morning, go to your challenging, white-collar, college-graduate job, and you work hard for eight or ten hours, and at the end of the day you’re tired and somewhat stressed and all you want is to go home and have a good supper and maybe unwind for an hour, and then hit the sack early because, of course, you have to get up the next day and do it all again. But then you remember there’s no food at home. You haven’t had time to shop this week because of your challenging job, and so now after work you have to get in your car and drive to the supermarket. It’s the end of the work day and the traffic is apt to be: very bad. So getting to the store takes way longer than it should, and when you finally get there, the supermarket is very crowded, because of course it’s the time of day when all the other people with jobs also try to squeeze in some grocery shopping. And the store is hideously lit and infused with soul-killing muzak or corporate pop and it’s pretty much the last place you want to be but you can’t just get in and quickly out; you have to wander all over the huge, over-lit store’s confusing aisles to find the stuff you want and you have to maneuver your junky cart through all these other tired, hurried people with carts (et cetera, et cetera, cutting stuff out because this is a long ceremony) and eventually you get all your supper supplies, except now it turns out there aren’t enough check-out lanes open even though it’s the end-of-the-day rush. So the checkout line is incredibly long, which is stupid and infuriating. But you can’t take your frustration out on the frantic lady working the register, who is overworked at a job whose daily tedium and meaninglessness surpasses the imagination of any of us here at a prestigious college.
But anyway, you finally get to the checkout line’s front, and you pay for your food, and you get told to “Have a nice day” in a voice that is the absolute voice of death. Then you have to take your creepy, flimsy, plastic bags of groceries in your cart with the one crazy wheel that pulls maddeningly to the left, all the way out through the crowded, bumpy, littery parking lot, and then you have to drive all the way home through slow, heavy, SUV-intensive, rush-hour traffic, et cetera et cetera.
Everyone here has done this, of course. But it hasn’t yet been part of you graduates’ actual life routine, day after week after month after year.
But it will be. And many more dreary, annoying, seemingly meaningless routines besides. But that is not the point. The point is that petty, frustrating crap like this is exactly where the work of choosing is gonna come in. Because the traffic jams and crowded aisles and long checkout lines give me time to think, and if I don’t make a conscious decision about how to think and what to pay attention to, I’m gonna be pissed and miserable every time I have to shop. Because my natural default setting is the certainty that situations like this are really all about me. About MY hungriness and MY fatigue and MY desire to just get home, and it’s going to seem for all the world like everybody else is just in my way. And who are all these people in my way? And look at how repulsive most of them are, and how stupid and cow-like and dead-eyed and nonhuman they seem in the checkout line, or at how annoying and rude it is that people are talking loudly on cell phones in the middle of the line. And look at how deeply and personally unfair this is.
Or, of course, if I’m in a more socially conscious liberal arts form of my default setting, I can spend time in the end-of-the-day traffic being disgusted about all the huge, stupid, lane-blocking SUV’s and Hummers and V-12 pickup trucks, burning their wasteful, selfish, forty-gallon tanks of gas, and I can dwell on the fact that the patriotic or religious bumper-stickers always seem to be on the biggest, most disgustingly selfish vehicles, driven by the ugliest [responding here to loud applause] (this is an example of how NOT to think, though) most disgustingly selfish vehicles, driven by the ugliest, most inconsiderate and aggressive drivers. And I can think about how our children’s children will despise us for wasting all the future’s fuel, and probably screwing up the climate, and how spoiled and stupid and selfish and disgusting we all are, and how modern consumer society just sucks, and so forth and so on.
You get the idea.
If I choose to think this way in a store and on the freeway, fine. Lots of us do. Except thinking this way tends to be so easy and automatic that it doesn’t have to be a choice. It is my natural default setting. It’s the automatic way that I experience the boring, frustrating, crowded parts of adult life when I’m operating on the automatic, unconscious belief that I am the center of the world, and that my immediate needs and feelings are what should determine the world’s priorities.
The thing is that, of course, there are totally different ways to think about these kinds of situations. In this traffic, all these vehicles stopped and idling in my way, it’s not impossible that some of these people in SUV’s have been in horrible auto accidents in the past, and now find driving so terrifying that their therapist has all but ordered them to get a huge, heavy SUV so they can feel safe enough to drive. Or that the Hummer that just cut me off is maybe being driven by a father whose little child is hurt or sick in the seat next to him, and he’s trying to get this kid to the hospital, and he’s in a bigger, more legitimate hurry than I am: it is actually I who am in HIS way.
Or I can choose to force myself to consider the likelihood that everyone else in the supermarket’s checkout line is just as bored and frustrated as I am, and that some of these people probably have harder, more tedious and painful lives than I do.
Again, please don’t think that I’m giving you moral advice, or that I’m saying you are supposed to think this way, or that anyone expects you to just automatically do it. Because it’s hard. It takes will and effort, and if you are like me, some days you won’t be able to do it, or you just flat out won’t want to.
But most days, if you’re aware enough to give yourself a choice, you can choose to look differently at this fat, dead-eyed, over-made-up lady who just screamed at her kid in the checkout line. Maybe she’s not usually like this. Maybe she’s been up three straight nights holding the hand of a husband who is dying of bone cancer. Or maybe this very lady is the low-wage clerk at the motor vehicle department, who just yesterday helped your spouse resolve a horrific, infuriating, red-tape problem through some small act of bureaucratic kindness. Of course, none of this is likely, but it’s also not impossible. It just depends what you what to consider. If you’re automatically sure that you know what reality is, and you are operating on your default setting, then you, like me, probably won’t consider possibilities that aren’t annoying and miserable. But if you really learn how to pay attention, then you will know there are other options. It will actually be within your power to experience a crowded, hot, slow, consumer-hell type situation as not only meaningful, but sacred, on fire with the same force that made the stars: love, fellowship, the mystical oneness of all things deep down.
Not that that mystical stuff is necessarily true. The only thing that’s capital-T True is that you get to decide how you’re gonna try to see it.
This, I submit, is the freedom of a real education, of learning how to be well-adjusted. You get to consciously decide what has meaning and what doesn’t. You get to decide what to worship.
Because here’s something else that’s weird but true: in the day-to day trenches of adult life, there is actually no such thing as atheism. There is no such thing as not worshipping. Everybody worships. The only choice we get is what to worship. And the compelling reason for maybe choosing some sort of god or spiritual-type thing to worship — be it JC or Allah, bet it YHWH or the Wiccan Mother Goddess, or the Four Noble Truths, or some inviolable set of ethical principles — is that pretty much anything else you worship will eat you alive. If you worship money and things, if they are where you tap real meaning in life, then you will never have enough, never feel you have enough. It’s the truth. Worship your body and beauty and sexual allure and you will always feel ugly. And when time and age start showing, you will die a million deaths before they finally grieve you. On one level, we all know this stuff already. It’s been codified as myths, proverbs, clichés, epigrams, parables; the skeleton of every great story. The whole trick is keeping the truth up front in daily consciousness.
Worship power, you will end up feeling weak and afraid, and you will need ever more power over others to numb you to your own fear. Worship your intellect, being seen as smart, you will end up feeling stupid, a fraud, always on the verge of being found out. But the insidious thing about these forms of worship is not that they’re evil or sinful, it’s that they’re unconscious. They are default settings.
They’re the kind of worship you just gradually slip into, day after day, getting more and more selective about what you see and how you measure value without ever being fully aware that that’s what you’re doing.
And the so-called real world will not discourage you from operating on your default settings, because the so-called real world of men and money and power hums merrily along in a pool of fear and anger and frustration and craving and worship of self. Our own present culture has harnessed these forces in ways that have yielded extraordinary wealth and comfort and personal freedom. The freedom all to be lords of our tiny skull-sized kingdoms, alone at the center of all creation. This kind of freedom has much to recommend it. But of course there are all different kinds of freedom, and the kind that is most precious you will not hear much talk about much in the great outside world of wanting and achieving and [unintelligible — sounds like “displayal”]. The really important kind of freedom involves attention and awareness and discipline, and being able truly to care about other people and to sacrifice for them over and over in myriad petty, unsexy ways every day.
That is real freedom. That is being educated, and understanding how to think. The alternative is unconsciousness, the default setting, the rat race, the constant gnawing sense of having had, and lost, some infinite thing.
I know that this stuff probably doesn’t sound fun and breezy or grandly inspirational the way a commencement speech is supposed to sound. What it is, as far as I can see, is the capital-T Truth, with a whole lot of rhetorical niceties stripped away. You are, of course, free to think of it whatever you wish. But please don’t just dismiss it as just some finger-wagging Dr. Laura sermon. None of this stuff is really about morality or religion or dogma or big fancy questions of life after death.
The capital-T Truth is about life BEFORE death.
It is about the real value of a real education, which has almost nothing to do with knowledge, and everything to do with simple awareness; awareness of what is so real and essential, so hidden in plain sight all around us, all the time, that we have to keep reminding ourselves over and over:
“This is water.”
“This is water.”
It is unimaginably hard to do this, to stay conscious and alive in the adult world day in and day out. Which means yet another grand cliché turns out to be true: your education really IS the job of a lifetime. And it commences: now. I wish you way more than luck.

Recomeçamos aqui.

milímetro 2

Novembro 3, 2010

é isto

Garbo

Agosto 31, 2010

Queen Christina (1933) de Rouben Mamoulian.

Sábado ao fim da tarde, rua de Sá da Bandeira. Após três horas perdidas na esplanada de um café qualquer com alguns amigos, volto para casa. Subo a rua em direcção ao carro, reparo nas árvores plantadas durante a Capital da Cultura e na frondosa folhagem que ganharam (foi-se o Rivoli  mas ficou o bom urbanismo…). No meio dos prédios Português Suave da altura do fim do Estado Novo (Lisboa tem as Avenidas Novas, o Porto um punhado de ruas a nascente dos Aliados) fica, para interesse do leitor mais curioso, a capela de Fradelos, vestígio de um tempo em que a Rua do Bonjardim se chamava  Estrada de Guimarães e no Via Catarina havia uma grande horta. A singela capelinha é rodeada por monstros do modernismo arquitectónico como o são o Hotel Dom Henrique, a torre do JN e – qual rei dos mamarrachos – o Silo-Auto. Mas calma, não escrevo estas linhas para cascar nos abortos estéticos que se construíram em plena Baixa do Porto há trinta ou quarenta anos. Dizia eu, a chegar à capela de Fradelos, que quem lá for depara com um jardim sombrio, muito mal arranjado e adornado com hidranjas, jarros e aquelas plantas que parecem couves de Bruxelas e que dão uma flor roxa. Admirava eu, então, este enquadramento idílico; reparava, agora, o seu objecto central: um casal de cinquentões (talvez, ou não, quem sabe) sentados num banco de aspecto desconfortável, inclinados e com os peitos encostados, ela apoiando-se com a mão esquerda no ombro dele, ele roçando-lhe o pescoço com o bigode; ela, com a mão direita dentro das calças dele, esfregava com uma ternura emocionante; ele retribuía-lhe o gesto e a ternura sincera, com alguns dedos (saber quantos seria indiscreto). Olhavam-se e sorriam como putos. Ela dizia-lhe algumas palavras carinhosas e ele beijava-lhe a ponta do nariz. Embalado no romantismo da coisa, e no respeito que merece, virei a cara para o outro lado da rua e continuei a contemplar arquitectura medíocre. Dois minutos passaram, voltei a cara: abraçavam-se apaixonadamente, já não ofegavam tanto, aliviados; ele, deitando-se no colo dela,  afagava-lhe a cara. Ela, se realmente estivesse a vender toda aquela paixão, teria de ser incluída na categoria que atribuem às lojinhas pitorescas da província ou dos centros históricos conhecidas por ainda venderem bolo-rei segundo a receita original ou por terem as melhores pencas no Natal. Mas não creio. Atrás deles reparei numa estátua de arte moderna, de certeza posta lá para remediar o descuido e dar algum encanto ao jardim. Tentativa falhada, obviamente, ou não fosse uma daquelas obras da escola artística da bosta de vaca empilhada em torre gótica. No entanto, o cenário enquadrava harmoniosamente também este elemento e dava à palavra escrita a maiúsculas na base da estátua um título místico a toda a história, e recordava-me que jamais terei talento ou genuinidade para inventar a ironia de que o povo acusa o destino; resta-me continuar a vadiar por aí. Maturidade.

Difícil

Agosto 14, 2010

Dicas para conseguir estudar em Agosto são bem-vindas. Alguém?

(coisas que já experimentei e não resultaram: na praia, em casa num dia de praia, na esplanada, num jardim público, de madrugada, na loja do cidadão, numa cave, no comboio, no Algarve, durante um concerto, num pinhal (que depois ardeu), no cama, na retrete, na mesa da cozinha, no parapeito da janela, com a minha avó ao lado, com o cão, com as minhas irmãs, … ajuda por favor.)

«Em desespero, há uns meses, dirigi-me à autoridade: a mãe. Eu queria cozinhar e suplicava instrução. Ela prontificou-se. Nada mais fácil. Eu deitava um “bocadinho” de azeite (ou de manteiga) e um “bocadinho” disto e daquilo, “alourava” um “bocadinho”, mexia (ou batia) um “bocadinho”, metia no forno (ou não metia no forno) um “bocadinho”, punha cá fora a coisa um “bocadinho” ou, se me apetecesse, não punha, até ficar tudo impecavelmente pronto, consoante as regras e as variações do gosto pessoal. Ao princípio, ouvi com respeito de aluno lorpa a doutrina majestática do mestre. Até ao instante fatal em que alvoreceu no meu pouco espírito uma inquietante dúvida teórica sobre a exacta natureza do “bocadinho”. Perguntei, com prudência, o que era um “bocadinho” e recebi uma resposta melancólica e resignada: um “bocadinho” era, evidentemente, um “bocadinho”, o “bocadinho” certo, nem mais, nem menos, e eu era, evidentemente, um idiota ou, para me conformar aos hábitos da Sucesso, um insucesso nato.

Eu admito que sou, de facto, um idiota. Longe da Senhora vivo de ovos e salsichas (de frasco): e não consigo cozer ovos e salsichas decentemente. Os ovos rebentam e as salsichas também. O “bocadinho” continua a escapar-me. Em noites de especial soturnidade telefono para a Tele-Pizza. Noites outras, ingiro (sem olhar) iogurtes e bolachas. Enterrado num sofá, a ler um finíssimo produto da mente humana, com intenso ódio à criação, só consigo imaginar comezainas sem fim, para sossego místico do corpo. Fui, como já observei, muito mal-educado. Na altura em que se tratou de fazer de mim um cidadão decente e uma besta feliz, toda a gente presumia a perenidade das cozinheiras. Para não falar nos electricistas e nos canalizadores. Depois, o mundo desabou e eu fiquei por baixo.» 11/94

As pessoas optimistas e complacentes com o mundo são tão desinteressantes. Um “bocadinho” de pessimismo nunca fez mal a ninguém (só ao Portugal de Sócrates – e de Cavaco – como VPV notou tão lúcidamente).

Isto é o género de divulgação institucional que a RTP2 faz, não é? A Câmara do Porto não anda com grande paciência para publicitar as iniciativas que promove, por isso adiantamo-nos. E esta vale bem a pena.

Acabou-se

Julho 1, 2010

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Só quandro as coisas úteis desaparecem é que notamos a falta que fazem. Tinha alguém reparado no excelente serviço público que o 24 horas prestava ao país? Não? Então habituem-se.

A selecção foi ontem eliminada pela Espanha.

O governo eliminou hoje a possibilidade de negócio da (espanhola) Telefónica.

(Qual mau perder qual carapuça.)

Mais, e principalmente: fecham hoje quatro fantásticas salas de cinema do Porto. O centro (na verdade não, o centro há muito que não tem salas de cinema) da cidade conta agora com apenas duas salas de exibição regular – o Campo Alegre e o Nun’Álvares. Acho que percebo agora o quão custoso é dizer adeus àquelas salas – este “agora” enquanto estado de reminiscência dos filmes que lá vi, depois de vasculhar na caixinha onde guardo os bilhetes de cinema. Não é um esforço de nostalgia emocional; é naturalmente que a minha consciênci me remete para os filmes (os bons principalmente, mas muitos dos maus também) que vi no “Cidade” quando tento prestar-lhe homenagem. E assim o farei.

Foi nessas salas que vi, entre muitos, o Closer, o Deathproof do Tarantino, o History of Violence e o Eastern Promisses do Cronenberg, o My Bluberry Nights do WKW, os últimos do Woody Allen (ah, o Matchpoint…), o (belíssimo) Belle Toujours e o (intragável) Cristóvão Colombo, do Oliveira, o Ninguém Sabe e o Andando do Koreeda, o Brokeback Mountain, Capote, Syriana, o Caché e o Lanço Branco do Haneke, o Les triplettes de Belleville, O Caimão do Moretti, os  portugueses (surpreendentemente bons)Odete e Onde bate o Sol, o Paranoid Park do Van Sant, o Broken Flowers (e este último a que não achei grande piada) do Jarmusch, as reposição do Gattopardo e do Voando sobre um Ninho de Cucos (sem dúvida das melhores sessões), Before the Devil knows you’re Dead, do Lumet, o Tetro (brilhante) e – provavelmente o melhor filme em estreia que lá vi – o Million Dollar Baby, do Eastwood. Despedi-me hoje, condignamente, com o Bad Lieutenent do Herzog.

Acabou-se.

x encontrou-se com y para colocarem a conversa em dia. (Revista Maria, há umas semanas.)

Argh! Esta mania horrível, esta intenção perversa, este novo-riquismo linguístico que tenta à viva força  substituir termos ou expressões tidas como “populares” – que mais não são que palavras genuínas – por este dialecto de hospedeira de bordo antes da descolagem; de tão ridículo que é já chegou às revistas popularuchas, apenas para mutilar as expressões mais básicas do nosso quotidiano. Já o digo há algum tempo: Portugal é um país de novos ricos, uma sociedade que cultiva esse cuidadinho idiota pela forma, que se quer sagrada e, invariavelmente, absurda. Porra! Ponham alguma razoabilidade nestes trejeitos pacóvios, botem algum gosto nisto tudo!

Ontem fiquei algo decepcionado com a falta de música nas ruas da Baixa – eram já quase 3h quando lá chegámos, é verdade; mas, caramba, os corpos só chegam de manhã às praias da Foz se forem embalados de arraial em arraial ao longo do rio. Nota positiva: vê-se já mais gente com ervas e alhos na mão. Finalmente viram que a diferença entre um martelo, uma vuvuzela e um tupperware não é assim tão grande: plástico industrial, asséptico, frio e previsível. Vivam as ervas! (subtraim-lhe o plural, outra nobre causa). Eu, de facto, prefiro o alho-porro ao martelo na noite de S. João. Quanto ao arraial para as minhas bandas, tenho que agradecer a todos os que compareceram, física ou espiritualmente. Foi uma grande noite ;)

(Algumas pessoas inquiriram-me sobre a selecção musical. Fica em baixo a playlist escolhida. E que para o ano não falte a música, oh fachabor!)

  1. Formiga bossa nova – Amália Hoje
  2. Olha por ti – Ala dos Namorados
  3. Estrada da montanha – Madredeus e a Banda Cósmica
  4. Irmãos de sangue – Rui Veloso
  5. Fado da pouca sorte – Tito Paris
  6. Kanimambo – Irmãos Catita
  7. Não há duas sem três – Balla
  8. Cartas de amor – Trio Odemira
  9. Zuvi zeva novi – Mler Ife Dada
  10. Estou além – Humanos
  11. Lavadeiras de Caneças – Aida Batista
  12. Ruas e praças – Ala dos Namorados
  13. Ignaras vedetas – Deolinda
  14. Azulejos voadores – Donna Maria
  15. Chamaram-me cigano – Resistência
  16. Tomo conta desta tua casa – Virgem Suta
  17. Bricabraque e pechisbeque – Ala dos Namorados
  18. À sombra de dois trombones – Dina Bastos e Mário Alves
  19. Cascata de pedra antiga – Florência
  20. Fado varina – Ana Moura
  21. Fado xuxu – Amália
  22. No azul do céu – Irmãos Catita
  23. Patinho de borracha – Deolinda
  24. Agarrem-me – Oquestrada
  25. Sou tripeirinha – Corina
  26. Boa nova – Helena Tavares
  27. Siga a marinha – Ala dos Namorados
  28. No cover – Samuel Úria
  29. S. João pagão – Dina Bastos e Mário Alves
  30. Máquia zero – Rui Veloso
  31. A teia – Humanos
  32. Vovó Joaquina – Virgem Suta
  33. Troca pingas – Ala dos Namorados
  34. Quando janto em restaurantes – Deolinda
  35. Vira da desfolhada – Tereza Salgueiro
  36. A carroça dos poetas – Sérgio Godinho
  37. Sonhadores inatos – Jorge Palma
  38. Comédia – Lufa Lufa
  39. Oxalá te veja – Oquestrada
  40. A problemática colocação de um mastro – Deolinda
  41. Baile da paróquia – Rui Veloso
  42. Marcha dos centenários – Maria Clara
  43. Drogado – Irmãos Catita
  44. Allô – Margarida Amaral
  45. O homem da gaita – Peste e Sida
  46. Tão lindo – Diabo na Cruz
  47. Homem muito brasa – Gabriela Schaaf
  48. Maria Albertina – Humanos
  49. Marcha do Zé do Povo – Maria de Lurdes Resende
  50. Quatro quadras soltas – Sérgio Godinho
  51. Movimento Perpétuo Associativo – Deolinda
  52. Hino nacional definitivo – Ena Pá 2000
  53. Marcha do Pião das Nicas – Carlos Paião
  54. A borracha do Rocha – Real Combo Lisbonense
  55. A Salsa das Amoreiras – Afonsinhos do Condado
  56. Festa – Despe e Siga
  57. Conto de fadas de Sintra a Lisboa – Pontos Negros
  58. Trolha da Areosa – Rui Veloso
  59. Fadinho da Ti’ Maria Benta – Amália
  60. São João de toda a gente – Florência
  61. O amarelo da Carris – Mariza
  62. Não tenho mais razões – Deolinda
  63. A lei – Virgem Suta
  64. Dona Ligeirinha – Diabo na Cruz
  65. A história de Zé Passarinho – Ala dos Namorados
  66. Trapeiras em flor – Maria Clara
  67. Sete e Pico – Conjunto António Mafra
  68. Fado Toninho – Deolinda
  69. O inventor – Heróis do Mar
  70. Venham mais cinco – Tubarões
  71. Lá vai Lisboa – Amália
  72. Fon fon fon – Deolinda
  73. É Pra Ganhar (Hino da Bola) – Irmãos Catita
  74. O galo é o dono dos ovos – Sérgio Godinho
  75. São João bonito – Lenita Gentil
  76. Criatura da noite – Entre Aspas
  77. Rádio Ska – Despe e Siga
  78. Foram cardos, foram prosas – Manuela Moura Guedes
  79. O conquistador – Da Vinci
  80. Fio de beque – Rui Veloso
  81. Pó de arroz – Tiago Bettencourt
  82. Fronteira – Mariza
  83. Lisboa à noite – Milú
  84. Tarantella – Amália
  85. Gorongosa – Irmãos Catita
  86. Canção da tal guitarra – Deolinda
  87. Psicadélico desesperado – Rui Veloso

Caso Prático nº 24/6

Junho 21, 2010

Ando com uma enorme falta de vontade para estudar. A matéria não ajuda nada: basicamente mais não é que perceber como determinado instrumento funciona e pode ser útil para dado fim. Ora, não tendo um fim em vista, o interesse pelos meios que me permitiriam, eventualmente, alcançar esse hipotético objectivo abandona-me mal me debruço sobre os papéis.

 Se não se importassem queria esboçar aqui um cenário, hipotético, fantasioso, que talvez me desperte algum interesse, frágil, efémero, sobre a dita matéria. (Este post só serve um propósito egoísta; recomendo que ninguém perca tempo a ler isto.)

*

Vem aí a noite de São João, as vinte e quatro horas mais loucas e concorridas do Porto no ano inteiro – e sem dúvida uma óptima oportunidade para fazer uma grande festa e um grande negócio. Ora, eu e um amigo abrimos no ano passado um café-restaurante, o JnB, que ao fim de semana acolhe concertos de jazz e blues e nos dias úteis é palco de conferências, apresentações de livros, debates, tertúlias. Ocupa um velho casarão no pitoresco e degradado Largo do Moinho de Vento (aos Clérigos) que, ao cabo de tantos anos de indiferença tanto por parte da Câmara como do público, é agora dinamizado por nossa iniciativa, com pequenos concertos ao fim da tarde (quando o tempo o permite) e uma feira de discos, livros, roupa, enfim, toda a parafernália em segunda mão possível e imaginada por quem lá vai vender e comprar.

Este ano planeamos instalar-nos definitivamente no dito largo na noite de São João. Para além do dinheiro e da publicidade, move-nos a festa e a música. Assim, quem lá for pode contar com um fornecimento non-stop de sardinha assada, broa, fêveras e caldo verde – para encher a bucha – sangria, verde, maduro tinto e branco, super bock e as “comerciais” brancas – para embalonar o espírito. A música já é ensaiada pelos artistas da casa desde o Natal. Do seu trabalho e reportório resultou um novo híbrido musical, o Dixie-Fado, uma transfiguração das antigas marchas e fados-canção da primeira metade do século, através de arranjos rítmicos que nos soam ao fim de um dia de trabalho numa qualquer cidade nas margens do Mississipi. Aos metais de sopro e à precursão juntam-se as vozes vencedoras do Concurso de Cantadeiras do Círculo Católico de Operários do Porto. Banda e canto animarão o largo do fim da tarde até à meia-noite, altura em que será feita uma pausa para que o fogo de artifício nos Aliados encha o olho dos presentes. Em seguida entram em palco os Real Combo Lisbonense que substituem a Dixie Banda enquanto esta, com o alho e as ervas na mão, o estandarte do Café na outra, os instrumentos sabe-se lá onde, partem em rusga sanjoanina pela Baixa, primeiro para a Cordoaria, depois pelos Caldeireiros até às Flores, ao Infante e Miragaia e bairro adentro subindo por Tomás Gonzaga, à Vitória e, finalmente, de volta ao Moinho de Vento. São por esta altura três e meia da manhã, o bailarico jazzistico dos Real Combo prepara-se para o último encore. É a vez dos DJs da Rádio M80 tomarem conta do público e remisturarem a melhor música portuguesa cozinhada nos anos 70, 80 e 90. É quase de manhã e continuam a sair sardinhas e caldo verde.

Agora mãos à obra: é preciso preparar a devida informação financeira (previsional, claro) para aliciar sócios que ajudem a financiar o regabofe. Fornecedores de material (equipamento musical e electrónico, decoração, comida, mobiliário, etc. etc.), licenças na Câmara e no Governo Civil, segurança adicional em caso de desgraça, publicidade e divulgação, empréstimo do financiamento residual que não for possível angariar e os seus custos, …; e não esquecer de traduzir em números redondos (bem redondos) os impactos positivos do projecto no negócio! – dar a conhecer o conceito a um novo e vasto público, prestigiar a marca, conquistar presença na comunicação social que anda noite fora a reportar as festividades, aumentar o capital cultural associado ao nome do Café.

Enfim, depois de estar tudo isto feito começo por apresentar a ideia aos meus vizinhos; aos meus concorrentes, melhor dizendo: o Progresso (mesmo em frente), a Casa Viúva e a Casa Susana, que partilham o largo connosco. Não será difícil convencê-los já que, vendo bem, os custos com os artistas serão quase na totalidade suportados por nós. Dividiremos os encargos do equipamento e decoração. Cada casa terá a sua própria banca e cada uma venderá um conjunto de produtos específicos, de forma a não por em causa as receitas dos outros. Chegando a um acordo, será apresentada toda a documentação financeira aos bancos que se propuserem a financiar parte do custo do projecto, a seis ou mais meses. Finalmente, será feito o devido choradinho junto da Vereadora da Animação e Cultura, a Dra. Guilhermina Rego, para que nos ceda uns trocos para pagar, pelo menos, à polícia e alguns cartazes; ou, se o ímpeto de austeridade até isso impossibilitar, ao menos uma referenciazita no site e revista da Câmara.

Nota: falar à associação de feirantes. É imprescindível a presença de uma senhora com voz possante a vender alho, cravos, cidreira e manjerico. Pronto, martelos também.

Nota 2: arranjar um esquema para impedir a entrada de Vuvuzelas (sugestão a ponderar: cobrar o dobro a quem andar com uma).

*

 Não sei se isto terá os efeitos que eu espero que tenha no meu estudo. Vou agora tentar. Desculpem o espaço ocupado e santa paciência aos que leram tudo.

Não foi por isso que se fez Abril?

Graças à objectiva virtual de Ricardo Alves, amigo no Facebook e no mundo real.

«His prescription [to the chaos and unhappiness of the world] was very exact. Society should be organized into phalanxes – the French Word is phalanstères – which would consist of a kind of Grand Hotel arrangement, not too dissimilar from Owen’s Villages of Cooperation. The hotel was carefully described: there would be a large central building (its various rooms and their dimensions were all thought out), and around it would be fields and industrial establishments. You could live in the hotel at the scale best suited to your purse; first, second, or third class, with just as much privacy as you desired (including meals in your rooms) and with just enough mingling to spread a leaven of culture. Efficiency would be achieved through centralization; Fourier, the old bachelor, paints a mouth-watering picture of the triumphs of the central cuisine.

Everyone would have to work, of course, for a few hours each day. But no one would shirk work, for each would do what he best liked. Thus the problem of dirty work was solved by asking who liked to do dirty work. The children, of course. So there would be Little Hordes who would go off gaily to the slaughterhouses or to mend the roads and have the time of their lives. And for the minority of children who shrank form dirty work, there would be Little Bands who would tend the flowers and correct their parents’ bad pronunciation. Among the workers there would be amicable competition to see who did best: contests of pear growers and cultivators of spinach and finally (once the phalanstery principle had encircled the globe and the 2,985,984 necessary phalanstères established) great battles of omelette chefs and champagne bottlers.

And the whole affair would be profitable in the extreme; gains would run to 30 percent. But it would be communal profit: the surplus would be divided five twelfths to labor, four twelfths to capital, and three twelfths to “ability”, and everyone would be urged to become a part owner as well as a fellow worker.»

Idem

If your sciences dictated by wisdom have served only to perpetuate poverty and strife, give us rather sciences dictated by folly, provided that they quiet furies and relieve the miseries of peoples. Charles Fourier

*

I alone have confounded twenty centuries of political imbecility; and it is to me alone that present and future generations will look for the origin of their immense happiness.

E eis que, entre Ricardo e Stuart Mill, surge em cena Charles Fourier:

«Born in 1772, the son of a tradesman of Besançon, he spent his days as an unsuccessful commercial traveler. In a sense he did nothing, not even marry. His passions were two: flowers and cats. It is only at the end of his life that he is appealing, for he spent his last years punctually sitting at advertised hours in his small room awaiting the visit of some great capitalist who would offer to finance his schemes to do over the world. (…) But no one ever came.

Fourrier, to be polite, was an eccentric; to be accurate, he was probably off his rocker. His world was a fantasy: the earth, he believed, had been given a life of eighty thousand years; forty thousand of ascending vibrations and the same number of descending. In between (never mind the arithmetic) lay eight thousand years of Apogée du Bonheur. We lived in the fifth of eight stages of advancement, having pushed through Confusion, Savagery, Patriarchism, ad Barbarousness. Ahead lay Guaranteeism (not a bad bit of insight), and then the upward slope of Harmony. After we reached utter bliss, however, the seesaw would tip and we would work our way right back down through all the stages to the beginning.

But as we worked our way ever deep into Harmony, things would really begin to pop: a Northern Crown would encircle the Pole, shedding gentle dew; the sea would become lemonade; six new moons would replace the old solitary satellite; and new species would emerge, better suited to Harmony: an antilion, a docile and most serviceable beast; an antiwhale, which could be harnessed to ships; an antibear; antibugs; and antirats. We would live to be one hundred and forty-four years old, of which one hundred and twenty years would be spent in the unrestricted pursuit of sexual love.» (continua…)

The Wordly Philosophers, Robert Heilbroner

*

O vídeo não está minimamente relacionado com o excerto de cima. Acho eu.

Aliás, x2.5

Junho 8, 2010

Mudo amanhã para o horário nocturno. Apenas eu, os livros, o Smith e restantes compinchas, a faculdade vazia e o luar de verão. É muito provavelmente a altura mais introspectiva do meu ano. Vou sentir falta dessas noites melancólicas – na verdade (admito com algum custo), de todo o imaginário académico.

(ainda ontem entrava pela primeira vez nos 70 metros, apenas para desistir do exame dez minutos depois de começar…)

[(derreto-me com estas curtas musicais da Disney.)]

Plastics

Junho 4, 2010

The Graduate é um filme de raro pessimismo. Na cena final, Benjamin Braddock conquista Elaine Robinson e rouba-a dos braços do seu noivo. Libertam-se de todos os velhotes que lhes barram o caminho, Benjamin varre alguns com a cruz que estava pendurada numa parede, e correm, ele de casaco em fanicos, ela de vestido de noiva, pela berma de uma estrada poeirenta, atrás de um autocarro. Depois de o autocarro parar, de pagarem o bilhete e de esbaforidos se sentarem nas cadeiras da última fila, sorriem, dão uns risos nervosos, entreolham-se, voltam a sorrir, e, depois de devolverem o olhar espantado aos velhos e maduros que enchem o autocarro, suspiram, voltam a olhar um para o outro, e começam a afastar-se. Absortos, cada um pelas janelas do seu lado, perscrutam o horizonte. Sem palavras, sem mais do que uma subtil linguagem corporal, sabemos que Benjamin e Elaine já se afastaram irremediavelmente e desiludiram para toda a vida. O gozo da vitória sobre as convenções e as vontades mais velhas, a possibilidade da evasão, a promessa do futuro não duram sequer o tempo que leva de uma paragem de autocarro à seguinte.

Esta cena isenta o filme de parte da crítica que Roger Ebert, o decano dos críticos de cinema americanos, fez ao filme quando se celebraram os 30 anos da sua estreia (embora não o redima totalmente da meia hora trapalhona que a precedeu). Mike Nichols sabe tão bem como qualquer homem heterossexual que aquela jovem estudante de Berkeley é muito mais elástica mas muito menos sensual que a sua amarga mãe. Benjamin Braddock perseguiu-a até ao altar como antes dormiu com a mãe: por fastio, desorientação, tédio. Essas coisas que se instalam no final de um curso universitário, logo após as primeiras sugestões de “plastics” e derivados.

x2

Junho 3, 2010

1º ano
No primeiro dia comemos frango assado directamente das folhas plásticas em que o envolveram no supermercado, acompanhado com batatas fritas de pacote, e bebemos um sumo qualquer pelo pacote – ainda não tínhamos talheres, pratos nem copos. Passada uma semana já tínhamos isso tudo, e uma estante e alguns livros. Pousei na prateleira de cima os dois volumes do D. Quixote, recém-comprados, editados pelo Círculo de Leitores.
Numa noite amena, durante o segundo semestre, em que tínhamos aberto todas as janelas da grande sala de estar, seleccionei através do método de abertura aleatória do livro uma página para ler em voz alta.

“Neste tempo já tinha D. Quixote tornado a si do letargo e com o mesmo tom de voz com que na véspera chamara pelo escudeiro quando estava estendido no vale de bordões, começou a chamar por ele, dizendo:
-Sancho amigo, dormes? Dormes, amigo Sancho?
– Qual dormir, pobre de mim, respondeu Sancho farto de quezília e desgosto. Parece que todos os diabos andaram comigo esta noite.”

Parei bruscamente porque chegou a minha vez no PES. O David tinha perdido contra o Vítor, e eu perdi a seguir.

2º ano
O Sr. do condomínio tocou à campainha para saber se tínhamos alguma fuga de água no apartamento. Fui extremamente educado, e disse que não, mas comentei en passant que, embora a banca da louça demonstrasse há alguns dias uma grande hesitação em escoar a água convenientemente, isso era o contrário de uma fuga – a água estava a tentar permanecer no nosso apartamento, enquanto nós a tentávamos expulsar – e que isso não podia estar de forma alguma relacionado com o caso que ele procurava resolver. Depois de descobrirmos que o baixo ritmo de escoamento da nossa banca estava directamente ligado à alta resistência à fissura da tinta plástica usada no apartamento da vizinha do quarto esquerdo, cuja parede da sala de estar ostentava uma protuberância de 2 dias mas aparência de 8 meses de gestação, protuberância essa que albergava a água com que laváramos os pratos das três últimas refeições (pizza congelada Pingo Doce, lasanha congelada Pingo Doce, comida congelada da avó do Vítor) decidi reincidir: seleccionei desta vez um trecho da página 299 para declamação:

“Ditosos e felícissmos tempos em que ao mundo veio o tão audaz cavaleiro D. Quixote de la Mancha pela sua muita honrada determinação de restituir ao mundo a já quase esquecida ordem de cavalaria andante! Saboreamos nós agora, nesta idade tão falta de passatempos alegres, a doçura de estarmos lendo… Não vos cheira a queimado?”

A última frase não faz parte do D. Quixote, e eu tinha razão: cheirava a queimado. No dia seguinte o David trouxe lá a casa um colega que sabia trabalhar com uma chave de fendas e substituiu a ficha semi-derretida do cilindro, o filho da puta do cilindro que me obrigou a tantos duches apressados e a começar muitos dias sob uma torrente gelada.

3º ano

Mudei de casa. Desta vez as estantes precederam-me, por isso os dois volumes do D. Quixote já estavam na prateleira de cima da estante quando eu cheguei. O Cineclube de Economia iniciou a sua actividade com a exibição de “Do The Right Thing” e após 15 minutos de filme, num unforesseeable turn of events, perdeu os seus 4 únicos espectadores afro-portugueses de sempre. Nem esperaram pela parte em que o preto parte a montra ao branco, nem pela parte em que o polícia branco estrangula o preto da boom box. Estávamos a almoçar quando um senhor de rabicho e camisa aberta até ao 3º botão interrompeu uma sadia discussão sobre o casamento homossexual com a frase “E a poligamia?”. A qualidade da comida do bar começou a decair mais ou menos por essa altura, para nunca mais recuperar, mas acho que não teve nada a ver com o caso. A meio do ano, numa das épocas em que tinha luz eléctrica no quarto, apercebi-me que o segundo volume estava de pernas para o ar. No último mês de aulas corrigi isso: pus o livro na posição correcta e tive 18 a Crescimento Económico.

4º ano
Aprendi, por métodos racionais, a importância de resistir à razão. Vou acabar o curso. Vou levar os dois volumes do D. Quixote para casa. Talvez os leia um dia destes.

Há um blogue de um crítico de cinema moderadamente interessante que leio de vez em quando. No último post que li, o gajo pedia críticas mais sinceras sobre o último filme do Godard, que ele apresentou em Cannes. Sinceras sobre a sua ignorância. Diz o gajo:

…just once. Just once. Really. Just once I’d like to see one of the Twitterific Kidcrits,™ or even one or two of their venerated elders, file a review that reads something like this: “I didn’t really like [Film X], I didn’t find it engaging on the levels I’m accustomed to, but then again, I also really didn’t understand a lot of the allusions in the film and I’m not particularly well-versed in the philosophical precepts that the movie seems to be extrapolating from. So while I didn’t like it, I also have to admit that I didn’t get it, and that at some level, I’m really underqualified to deliver an entirely reliable assessment of it.”

Esta é a merda sensata que nunca se lê. Mas até há boas razões para não se ler. Artigos/críticas/posts, equilibrados, ambíguos, fundamentalmente indecisos sobre algum assunto, mesmo que mais próximos da verdade ou de outra coisa qualquer do género com outro nome, dão leituras menos interessante, resultam em textos menos apelativos. Claro que isto não é absoluto, e o talento para escrever consegue saltar com sucesso sobre resmas de obstáculos, mas é muitas vezes verdade.

Não sei é se isto é uma razão para escrever, ou uma razão para não escrever.

Cavaco Silva promulgou há bocado o diploma que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, com aquela habitual pose de frete institucional de quem quer despachar estes fait-divers para atacar as questões sérias que afligem todos os portugueses. Escolheu mal o dia para bater o ralhete já que – e a política deve tanto, mas tanto, ao domínio do simbólico – se comemora hoje o Dia Internacional Contra a Homofobia. Há precisamente 20 anos, a OMS retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais.

Duas imagens à vossa consideração,

A primeira fotografia foi tirada no Stonewall Inn de Nova Iorque, há 30 anos, durante os célebres motins que marcaram o início o Movimento Gay por todo o mundo.

A segunda foi tirada na Rua Passos Manuel, no Porto, durante a  Marcha do Orgulho LGBT de 2009.

Da primeira para a segunda não muda apenas a data e o local; vemos confrontos entre manifestantes e a polícia (0 Estado) na primeira, temos manifestantes pacíficos na segunda; uma subcultura subterrânea considerada como lixo social e arrumada em guetos decrépitos, um movimento aberto à sociedade, emancipatório, na defesa da liberdade e da dignidade humana; e, sobretudo, um clima de obscuridade e opressão em contraposição a um ambiente diversificado, pro-activo e descomplexado.

Não entendo como há quem queira viver numa sociedade e no país da primeira imagem, em crise económica, com desemprego acima dos 10%, com uma sociedade civil mansa e amorfa, que não empreende, que não investe nem projecta, acomodada ao Estado e ao state of affairs, que não cria e não se interessa por aqueles que a constituem. Sr. Presidente, obrigado por hoje também não ter sido – no que toca aos actos, pelo menos –  uma dessas pessoas.

Boogie Economics

Maio 16, 2010

«(…) the ‘business barometer’ [was] developed at Harvard by Warren Persons (1878-1937) as a method of forecasting the cycle*. There was also Henry Ludwell Moore (1869-1958) at Columbia University, who sought, like Jevons,to establish a link between the business cycle and the weather. A few years later, in 1923, he switched from the weather to the movement of the planet Venus as his explanation. Moore’s work is notable for the  use of a wider range of statistical techniques that were employed by other economists at this time.»

*business cycles: ciclos económicos (flutuações do PIB)

Sr. Moore, ouça quem percebe do assunto:

Don’t blame it on the sunshine
Don’t blame it on the moonlight
Don’t blame it on the good times
Blame it on the boogie!

Nossa Senhora de Fátima, pela Atlantis (via facebook). Um graaande milagre.

Protesto

Abril 19, 2010

Os membros deste blogue condenam com veemência, a par de mais dezoito blogues nacionais, o astronómico salário auferido por Pedro Mexia enquanto Director Interino da Cinemateca Portuguesa. É um insulto ao estado do Cinema Português e à crise que o país atravessa!

Moon Love

Abril 11, 2010

Eu não morri, ando só um bocado mais ocupado. Hoje fiquei a saber – e decido agora partilhar – que o Tchaikovsky esteve 3 semanas à frente do top americano de vendas de discos, em 1939, com uma reinvenção de parte da sua 5ª sinfonia pela mão de de Chet Baker e Glenn Miller. Chamaram-lhe, na altura, Moon Love.

Amanhã vamos ao bolinho!

Março 17, 2010

e ao Wong Kar Wai; mas não vamos de sidecar.

«I never, indeed, wavered in the conviction that happiness is the test of all rules of conduct, and the end of life. But I now thought that this end was only to be attained by not making it the direct end. Those only are happy (I thought) who have their minds fixed on some object other than their own happiness; on the happiness of others, on the improvement of mankind, even on some art or pursuit, followed not as a means, but as itself an ideal end. Aiming thus at something else, they find happiness by the way. Ask yourself whether you are happy, and you cease to be so.»

J. S. Mill, Autobiography

Vejam alguns dados do World Database on Happiness sobre Portugal, um país com um nível médio de felicidade idêntico ao da Mongólia, da Bielorrússia, da Nigéria ou do Djibouti.

*campeão mundial da Felicidade. Pois sim.

Os Óscares

Março 7, 2010

Saia o filme dos estrunfes esta noite como o grande vencedor dos Óscares 2010 e podem considerar criada, planeada e militarizada uma jihad global anti-academia que eu próprio liderarei.